AnūüéĪwA

T O D O S O U O UM : OM E S M O U T R O

Mês: junho, 2018

“Intensidade”

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força viva que não tem limites
vai at√© o √Ęmago
cutuca ferida pra sarar
ou pra sentir cócegas

repousa no silêncio
para se embriagar de nada

enxerga no escuro
e mergulha em formas indefinidas

olha para o sol
até lacrimejar os olhos

desculpa-se de joelhos
por ser quem é

levanta-se

e segue amando as borboletas
em demasia
n√£o por serem belas
mas por conhecerem os segredos
de grandes transforma√ß√Ķes

 

por Giulia Amandit

An√ļncios

Muda de Amor

Imagem relacionada

Amor muda. Amar muda…¬†de amor.

Amor √© “essa muda¬†que cresce e muda”

Em silêncio audível, transparência visível

Uma flor de cacto: Muda de amor…

 

* Cita√ß√£o do poema “Amor-muda”, de Michele Torinelli.

 

 

Don Juan e o caminho do guerreiro

images 5 Don Juan e o caminho do guerreiro

Trechos de Porta para o infinito, de Carlos Castaneda. São Paulo, Círculo do Livro.

As condi√ß√Ķes de um p√°ssaro solit√°rio s√£o cinco:
Primeiro, que ele voe ao ponto mais alto;
Segundo, que não anseie por companhia, nem a de sua própria espécie;
Terceiro, que dirija seu bico para os céus;
Quarto, que n√£o tenha uma cor definida;
Quinto, que tenha um canto muito suave.
(San Juan de la Cruz, Dichos de luz y amor)

p. 21
Contei a Don Juan que naquela ocasi√£o eu tamb√©m tive a no√ß√£o de que parar o di√°logo interior implicava algo mais do que simplesmente cancelar as palavras que eu me dizia. Todo o meu processo de pensar havia parado e eu me sentira praticamente suspenso, flutuando. Essa no√ß√£o me provocara uma sensa√ß√£o de p√Ęnico e tive de recome√ßar meu di√°logo interior, como ant√≠doto.
– J√° lhe disse que o di√°logo interior √© o que nos prende √† terra ‚Äď disse Dom Juan. ‚Äď O mundo √© isso e aquilo somente porque falamos conosco dizendo que ele √© isso e aquilo.
Don Juan explicou que a passagem para o mundo dos feiticeiros se abre depois que o guerreiro aprende a parar o di√°logo interior.
– Modificar nossa concep√ß√£o do mundo √© o ponto nevr√°lgico da feiti√ßaria ‚Äď disse ele. ‚Äď E parar o di√°logo interior √© o √ļnico meio de conseguir isso. O resto √© s√≥ enchimento. Agora voc√™ est√° em condi√ß√Ķes de saber que nada do que voc√™ viu ou fez, com a exce√ß√£o de ter parado o di√°logo interior, poderia s√≥ por si ter modificado alguma coisa em voc√™, ou em sua concep√ß√£o do mundo. A condi√ß√£o, naturalmente, √© que essa modifica√ß√£o n√£o seja perturbada. Agora, voc√™ pode compreender por que o mestre n√£o domina seu aprendiz. Isso s√≥ provocaria obsess√£o e morbidez.

p. 26
– (‚Ķ) Um guerreiro aceita seu destino, seja qual for, e o aceita na mais total humildade. Aceita com humildade aquilo que ele √©, n√£o como fonte de pesar, mas como um desafio vivo. √Č preciso tempo para cada um de n√≥s compreender esse ponto e viv√™-lo plenamente. Eu, por exemplo, detestava a simples men√ß√£o da palavra humildade. Sou √≠ndio e n√≥s √≠ndios sempre fomos humildes e nunca fizemos outra coisa sen√£o curvar a cabe√ßa. Pensei que a humildade n√£o fazia parte da vida de um guerreiro. Mas estava enganado! Hoje sei que a humildade de um guerreiro n√£o √© a humildade de um mendigo. O guerreiro n√£o curva a cabe√ßa para ningu√©m, mas ao mesmo tempo n√£o permite que pessoa alguma curve a cabe√ßa para ele. O mendigo, ao contr√°rio, prosta-se de joelhos por qualquer coisa e lambe as botas de quem quer que ele considere superior; mas, ao mesmo tempo, exige que algu√©m que lhe seja inferior lhe lamba as botas. Foi por isso que lhe disse antes que eu n√£o sabia como se sentiam os mestres. S√≥ conhe√ßo a humildade do guerreiro, e isso nunca permitir√° que eu seja mestre de algu√©m.

p. 30
– Eis o defeito das palavras ‚Äď disse ele, num tom tranquilizador. ‚Äď Sempre nos obrigam a sentir-nos esclarecidos, mas, quando nos viramos para enfrentar o mundo, elas sempre nos falham e terminamos enfrentando o mundo como sempre o fizemos, sem esclarecimento. Por este motivo, o feiticeiro procura agir em vez de falar e para isso ele consegue uma nova descri√ß√£o do mundo: uma nova descri√ß√£o em que falar n√£o √© assim t√£o importante, e em que novos atos t√™m novos reflexos.

p. 38-9
РSempre que o diálogo para, o mundo entra em colapso e facetas extraordinárias de nossos seres emergem, como se tivessem sido mantidas numa guarda severa por nossas palavras. Você é o que você é porque se diz a si mesmo que é assim.

p. 55
– √Č seu dever tranquilizar sua mente. Os guerreiros n√£o conquistaram suas vit√≥rias batendo com a cabe√ßa de encontro aos muros e sim conquistando os muros. Os guerreiros saltam por cima dos muros; n√£o os destroem.
– Como posso saltar por cima deste? ‚Äď perguntei.
– Antes de tudo, acho um erro fatal voc√™ levar qualquer coisa t√£o √† s√©rio assim ‚Äď disse ele, sentando-se ao meu lado. ‚Äď Existem tr√™s tipos de maus h√°bitos que usamos repetidamente quando nos defrontamos com situa√ß√Ķes desconhecidas na vida. Primeiro, podemos n√£o levar em considera√ß√£o o que est√° acontecendo ou j√° aconteceu, e sentir que nunca aconteceu. Isso √© o m√©todo do fan√°tico. Segundo, podemos aceitar tudo pelas apar√™ncias e sentir que sabemos o que se est√° passando. Esse √© o m√©todo do devoto. Terceiro, podemos ficar presos a um fato porque n√£o conseguimos desprez√°-lo, nem conseguimos aceit√°-lo totalmente. Esse √© o m√©todo do tolo. O seu m√©todo? Existe um quarto, o correto, o m√©todo do guerreiro. Um guerreiro age como se nada tivesse acontecido, jamais, porque n√£o acredita em nada, e no entanto aceita tudo pelas apar√™ncias. Aceita sem aceitar e despreza sem desprezar. Nunca acha que sabe, nem sente que nada aconteceu. Age como se estivesse controlado, mesmo que esteja tremendo por dentro. Agir desse modo desfaz a obsess√£o.

p. 57
РNós nos confundimos de propósito, sim. Nós todos temos conhecimento de nossos atos. Nossa razãozinha mesquinha propositadamente se transforma no monstro que se imagina. Mas ela é muito pequena para um molde tão grande.

p. 77
– Eu lhe disse que Genaro veio para lhe mostrar uma coisa, o mist√©rio dos seres luminosos como sonhadores. Voc√™ queria saber a respeito do s√≥sia. Come√ßa com os sonhos. Mas a√≠ voc√™ perguntou: ‚ÄúO que √© o s√≥sia?‚ÄĚ E eu disse que o s√≥sia √© o pr√≥prio. O pr√≥prio sonha o s√≥sia. Isso devia ser simples, s√≥ que n√£o h√° nada de simples em n√≥s. Talvez os sonhos normais do pr√≥prio sejam simples, mas isso n√£o significa que o pr√≥prio seja simples. Uma vez que aprendeu a sonhar o s√≥sia, o pr√≥prio chega a essa estranha encruzilhada e chega um momento em que a gente compreende que √© o s√≥sia que sonha o pr√≥prio.

p. 132-5
Eu disse a Don Juan que, por algum motivo estranho, tinha gostado muito deles.
– N√£o √© assim t√£o estranho ‚Äď retrucou ele. ‚Äď Voc√™ deve ter sentido que o tonal deles √© certo. √Č certo, mas n√£o para a nossa √©poca. Provavelmente sentiu que eles parecem crian√ßas. E s√£o. E isso √© muito duro. Eu os compreendo melhor, e assim n√£o pude deixar de sentir um pouco de tristeza. Os √≠ndios s√£o como os c√£es, nada possuem. Mas isso √© da natureza da sorte deles e eu n√£o deveria ficar triste. Minha tristeza, claro, √© uma forma de eu me entregar.
– De onde eles s√£o, Don Juan?
– Das Sierras. Vieram aqui na esperan√ßa de fazer fortuna. Querem ser comerciantes. S√£o irm√£os. Eu lhes disse que tamb√©m venho das Sierras e que tamb√©m sou comerciante. Disse que voc√™ era meu s√≥cio. O dinheiro que lhes demos foi uma prenda; um guerreiro deve dar dessas prendas o tempo todo. Sem d√ļvida eles precisam do dinheiro, mas a necessidade n√£o deve ser uma considera√ß√£o essencial para uma prenda. O que se procura √© o sentimento. Eu, pessoalmente, fiquei comovido ao ver aqueles tr√™s. Os √≠ndios s√£o os perdedores de nossa √©poca. A decad√™ncia deles come√ßou com os espanh√≥is e agora, sob o reino de seus descendentes, os √≠ndios perderam tudo. N√£o √© exagero dizer que os √≠ndios perderam seu tonal.
РIsso é uma metáfora, Don Juan?
– N√£o. √Č uma verdade. O tonal √© muito vulner√°vel. N√£o pode suportar maus-tratos. O homem branco, desde o dia em que pisou nesta terra, sistematicamente, vem destruindo n√£o apenas o tonal √≠ndio de cada √©poca, como ainda o tonal pessoal de cada √≠ndio. √Č f√°cil deduzir que, para a m√©dia dos √≠ndios pobres, o branco tem sido um verdadeiro inferno. No entanto, a ironia √© que, para outro tipo de √≠ndio, tem sido uma felicidade.
РDe quem está falando? Que tipo de índio é esse?
– O feiticeiro. Para o feiticeiro, a Conquista foi o desafio de toda uma vida. Eles foram os √ļnicos que n√£o foram destru√≠dos por ela, mas se adaptaram e a utilizaram para a sua vantagem.
РComo foi possível, Don Juan? Eu tinha a impressão de que os espanhóis não deixaram pedra sobre pedra.
– Digamos que eles revolveram todas as pedras que estavam dentro dos limites de seu pr√≥prio tonal. Na vida dos √≠ndios, por√©m, havia coisas que eram incompreens√≠veis para o branco; essas coisas ele nem notou. Talvez fosse pura sorte dos feiticeiros, ou talvez tenha sido sua sabedoria que os tenha salvado. Depois que o tonal da √©poca e o tonal pessoal de cada √≠ndio foi arrasado, os feiticeiros viram-se agarrados √† √ļnica coisa qua permanecia inconteste, o nagual. Em outras palavras, o tonal refugiou-se no nagual. Isso n√£o poderia ter acontecido n√£o fossem as condi√ß√Ķes desesperadoras de um povo vencido. Os homens de conhecimento de hoje s√£o o produto dessas condi√ß√Ķes e os conhecedores finais do nagual, j√° que foram deixados ali completamente em paz. L√°, o branco nunca se aventurou. Na verdade, ele nem tem ideia de que existe.
Nesse ponto senti-me obrigado a apresentar um argumento. Contestei sinceramente, dizendo que no pensamento europeu n√≥s t√≠nhamos conhecimento do que ele chamava de nagual. Apresentei o conceito do Ego Transcendental, ou o observador n√£o observado presente em todos os nossos pensamentos, percep√ß√Ķes e sentimentos. Expliquei a Dom Juan que o indiv√≠duo podia perceber-se ou intuir-se, como ser, por meio do Ego Transcendental, pois era esta a √ļnica coisa capaz de julgamento, capaz de revelar a realidade dentro do reino de sua consci√™ncia.
Dom Juan n√£o se alterou. Riu-se.
– Revelar a realidade ‚Äď disse ele, me imitando. ‚Äď Isso √© o tonal.
Argumentei que o tonal pode ser chamado o Ego Empírico encontrado no nosso fluxo passageiro de consciência ou experiência, enquanto o Ego Transcendental se encontrava por trás desse fluxo.
– Observando, imagino ‚Äď disse ele, zombando.
– Isso mesmo. Observando-se.
РEu o ouço falar. Mas você não está dizendo nada. O nagual não é experiência, nem intuição, nem consciência. Esses termos e tudo o mais que você possa dizer são apenas itens na ilha do tonal. O nagual, ao contrário, é apenas o efeito. O tonal começa ao nascer e termina na morte, mas o nagual nunca termina. O nagual não tem limites. Já disse que o nagual está onde paira o poder; por isso foi apenas um meio de me referir ao assunto. Por causa de seu efeito, talvez o nagual possa ser mais bem compreendido em termos de poder. Por exemplo, quando você se sentiu dormente e sem poder falar hoje, na verdade eu o estava acalmando; isto é, o meu nagual estava agindo sobre você.
РComo é que isso é possível, Dom Juan?
РVocê não vai acreditar, mas ninguém sabe como. O que eu sei é que eu queria toda sua atenção e aí o meu nagual começou a trabalhar em você. Sei disso porque posso ver o efeito, mas não sei como é que age.
Ele ficou calado por um momento. Eu queria continuar no mesmo assunto. Tentei fazer uma pergunta; ele n√£o o permitiu.
– Pode-se dizer que o nagual explica a criatividade. ‚Äď disse ele por fim, olhando-me de modo penetrante. ‚Äď O nagual √© a √ļnica parte de n√≥s que consegue criar.
Ele ficou quieto, olhando pra mim. Senti que estava positivamente conduzindo-me para um setor sobre o qual eu queria que desse mais explica√ß√Ķes. Ele dissera que o tonal n√£o criava nada, apenas assistia e auxiliava. Perguntei como ele explicava o fato de n√≥s constru√≠rmos magn√≠ficas estruturas e m√°quinas.
– Isso n√£o √© criatividade ‚Äď disse ele. ‚Äď √Č apenas moldagem. Podemos moldar qualquer coisa com nossas m√£os, pessoalmente ou em conjunto com as m√£os de outros tonais. Um grupo de tonais pode moldar qualquer coisa, magn√≠ficas estruturas, como diz voc√™.
РMas então o que é criatividade, Don Juan?
Ele ficou me olhando, os olhos apertados. Riu baixinho, levantou a mão direita sobre a cabeça e torceu o pulso numa sacudidela repentina, como se estivesse girando uma maçaneta de porta.
– A criatividade √© isso ‚Äď disse ele, e levou a m√£o com palma em concha at√© o n√≠vel de meus olhos.
Levei um tempo enorme para focalizar meus olhos na mão dele. Sentia que uma membrana transparente estava mantendo todo o meu corpo numa posição fixa e que eu tinha de rompê-la para poder focalizar minha vista na mão dele.
Esforcei-me até caírem gotas de suor em meus olhos. Por fim ouvi ou senti um estalo e meus olhos e minha cabeça estavam livres.
Na palma direita dele estava o roedor mais estranho que já vi. Parecia um esquilo de cauda peluda. A cauda, porém, parecia mais de um porco-espinho. Tinha espinhos duros.
– Toque nele! ‚Äď ordenou Dom Juan, baixinho.
Obedeci mecanicamente e passei meu dedo por seu dorso macio. Dom Juan aproximou a mão dos meus olhos e aí reparei uma coisa que me provocou espasmos nervosos. O esquilo tinha óculos e dentes grandes.
– Parece um japon√™s ‚Äď disse eu, e comecei a rir histericamente.
O roedor aí começou a crescer na palma de Dom Juan. E enquanto meus olhos ainda estavam cheios de lágrimas de riso, o roedor ficou tão enorme que desapareceu. Saiu do campo de minha visão. Isso aconteceu tão depressa que fui pilhado no meio de um espasmo de riso. Quando tornei a olhar, ou quando enxuguei os olhos e os localizei direito, eu estava olhando para Don Juan. Ele estava sentado no banco e eu de pé defronte dele, embora não me lembrasse de me ter levantado.
Por um momento, meu nervosismo foi incontrolável. Dom Juan levantou-se calmamente, obrigou-me a sentar, apoiou meu queixo entre o seu bíceps e o antebraço esquerdo, e deu-me um golpe bem no topo da cabeça com a mão direita. O efeito foi como um choque de uma corrente elétrica. Acalmou-me imediatamente.
(…)
РUm dos atos de um guerreiro é nunca deixar que coisa alguma o afete. Assim, um guerreiro pode estar vendo o próprio diabo, mas não permite que ninguém o saiba. O controle de um guerreiro tem de ser impecável.

p. 179
Depois que acabamos de comer, Dom Juan sentou-se a meu lado e espiou meus apontamentos, por cima do meu ombro. Comentei que provavelmente eu levaria anos para ordenar tudo o que me acontecera durante aquele dia. Eu sabia que estava inundado de percep√ß√Ķes que nunca poderia esperar compreender.
– Se n√£o consegue entender, est√° em grande forma ‚Äď comentou ele. ‚Äď Quando voc√™ compreende √© que est√° em embrulhada. Isso do ponto de vista de um feiticeiro, naturalmente. Do ponto de vista de um homem comum, se voc√™ n√£o compreender, estar√° naufragando. Em seu caso, diria que um homem m√©dio pensaria que voc√™ est√° dissociado, ou que vai ficar dissociado.
Ri da escolha das palavras. Eu sabia que ele estava me atirando na cara o conceito de dissociação; eu o mencionara algum tempo antes, com relação aos meus receios. Assegurei-lhe que desta vez eu nada iria perguntar sobre o que se passara comigo.
– Nunca fiz restri√ß√Ķes √†s conversas ‚Äď disse ele. Podemos falar sobre o nagual quanto quiser, contanto que n√£o tente explic√°-lo. Se voc√™ se recorda, eu disse que o nagual √© s√≥ para ser presenciado. Assim, podemos conversar sobre o que presenciamos e como o presenciamos. Mas voc√™ quer ter a explica√ß√£o de como tudo isso √© poss√≠vel, e isso √© uma abomina√ß√£o. Voc√™ quer explicar o nagual pelo tonal. √Č estupidez, especialmente em seu caso, pois voc√™ n√£o pode mais esconder-se por tr√°s de sua ignor√Ęncia. Sabe perfeitamente que s√≥ fazemos sentido ao falar porque ficamos dentro de certos limites, e esses limites n√£o se aplicam ao nagual.

p. 228
Voc√™ tomou aquelas plantas seguindo os pr√≥prios passos que eu mesmo segui. A √ļnica diferen√ßa foi que, em vez de mergulh√°-lo neles, eu parei quando achei que voc√™ tinha armazenado vis√Ķes suficientes do nagual. Foi por esse motivo que jamais quis conversar sobre seus encontros com as plantas de poder, nem deixar que voc√™ falasse sobre elas obsessivamente; n√£o adiantava dissertar sobre o indiz√≠vel. Aquelas foram verdadeiras excurs√Ķes ao nagual, o desconhecido.

p. 230-1
Meu estado de espírito feliz não durou muito, contudo. Meu desejo de largar o mundo de Don Juan não era exequível. Minha rotina perdera seu poder. Tentei pensar em alguma coisa em Los Angeles, mas não havia nada. Don Juan uma vez me dissera que eu tinha medo das pessoas, e que aprendera a defender-me não querendo nada. Disse que não desejar nada era a maior realização de um guerreiro. Em minha estupidez, porém, eu ampliara a sensação de não querer nada e transformei aquilo em não gostar de nada. Assim, minha vida era chata e vazia.
Ele tinha raz√£o, e enquanto me dirigia rapidamente para o norte, o pleno impacto de minha loucura insuspeita atingiu-me afinal na rodovia. Comecei a compreender o √Ęmbito de minha escolha. Eu estava realmente largando um mundo m√°gico de renova√ß√£o cont√≠nua por minha vida mansa e vazia de Los Angeles. Comecei a lembrar-me de meus dias de rotina. Lembrei-me de um domingo em especial. Passara o dia todo inquieto, sem ter o que fazer. Nenhum amigo fora me visitar. Ningu√©m me convidara para algum programa. As pessoas que eu tinha vontade de ver n√£o estavam em casa, e, pior de tudo, eu j√° tinha assistido a todos os filmes da cidade. De tardinha, em desepero de causa, tornei a procurar a lista dos filmes e encontrei um que eu nunca tinha querido ver. Estava sendo exibido numa cidade a uns cinquenta quil√īmetros de dist√Ęncia. Fui ver o filme e detestei-o, mas at√© isso era melhor do que nada ter para fazer.
Sob o impacto do mundo de Don Juan, eu me modificara. Para começar, desde que o conhecera, eu não tinha mais tempo para me chatear. Isso em si já era suficiente para mim; Dom Juan realmente se certificara de que eu escolheria o mundo do guerreiro. Dei a volta e voltei para a casa dele.

– O que teria acontecido se eu tivesse resolvido voltar para Los Angeles? ‚Äď perguntei.
– Isso teria sido uma impossibilidade ‚Äď esclareceu. ‚Äď Essa escolha n√£o existe. S√≥ o que se exigia de voc√™ era permitir que o seu tonal tomasse conhecimento de ter resolvido entrar para o mundo dos feiticeiros. O tonal n√£o sabe que as decis√Ķes est√£o no setor do nagual. Quando pensamos que decidimos, s√≥ o que estamos fazendo √© reconhecer que alguma coisa al√©m da nossa compreens√£o estabeleceu o quadro de nossa chamada decis√£o, e s√≥ o que fazemos √© concordar. Na vida de um guerreiro s√≥ existe uma coisa, um √ļnico ponto que realmente n√£o √© decidido: at√© que ponto se pode ir no caminho do conhecimento e do poder. Isso √© um problema aberto e ningu√©m pode prever sua solu√ß√£o. Um dia eu lhe disse que a liberdade que tem um guerreiro √© ou agir de modo impec√°vel, ou agir como um idiota. A impecabilidade √© realmente o √ļnico ato que √© livre e assim a verdadeira medida do esp√≠rito do guerreiro.
Don Juan explicou que depois que o aprendiz toma a sua resolu√ß√£o de ingressar no mundo dos feiticeiros, o mestre lhe d√° uma tarefa pragm√°tica, coisa que ele tem de realizar em sua vida di√°ria. A tarefa, destinada a se adaptar √† personalidade do aprendiz, √© geralmente uma esp√©cie de situa√ß√£o rebuscada na vida, em que se sup√Ķe que o aprendiz se coloque como meio de afetar permanentemente sua vis√£o do mundo. No meu pr√≥prio caso, eu entendia a tarefa mais como uma brincadeira animada do que como uma situa√ß√£o s√©ria da vida. Com o tempo, por√©m, percebi que tinha de ser s√©rio a respeito disso.
– Depois que o aprendiz recebe sua tarefa de feiti√ßaria, est√° pronto para outro tipo de instru√ß√£o ‚Äď continuou ele. ‚Äď A√≠ ele √© um guerreiro. No seu caso, como voc√™ n√£o era mais aprendiz, eu lhe ensinei as tr√™s t√©cnicas que ajudam a sonhar: romper as rotinas da vida, o passo do poder, e n√£o-fazer. Voc√™ era muito constante, burro como aprendiz e burro como guerreiro. Anotava conscienciosamente tudo o que eu dizia e tudo o que lhe acontecia, mas n√£o agia exatamente conforme eu mandava. De modo que eu ainda tinha de bombarde√°-lo com plantas de poder.

p. 233-5
– (‚Ķ) Os feiticeiros dizem que estamos dentro de uma bolha. √Č uma bolha em que somos colocados no momento de nosso nascimento. A princ√≠pio a bolha est√° aberta, mas depois come√ßa a fechar-se, at√© nos ter trancafiado dentro dela. Essa bolha √© a nossa percep√ß√£o. Vivemos dentro dessa bolha toda a nossa vida. E o que presenciamos em suas paredes redondas √© o nosso pr√≥prio reflexo.
(…)
O que est√° refletido √© nossa vis√£o de mundo ‚Äď disse ele. ‚Äď Essa vis√£o √© uma primeira descri√ß√£o, que nos √© dada desde o momento de nosso nascimento at√© que toda a nossa aten√ß√£o √© apanhada por ela e a descri√ß√£o se torna uma vis√£o. O trabalho do mestre √© reorganizar essa vis√£o, preparar o ser luminoso para o tempo em que o benfeitor abrir a bolha do lado de fora.
(…)
A bolha abre-se a fim de permitir ao ser luminoso uma visão de sua totalidade. Naturalmente isso de chamar a coisa de uma bolha é apenas uma maneira de dizer, mas nesse caso é uma maneira precisa. A delicada manobra de conduzir um ser luminoso para a totalidade de seu ser exige que o mestre trabalhe de dentro da bolha e o benfeitor de fora. O mestre reorganiza a visão do mundo. Chamei a essa visão a ilha do tonal. Já disse que tudo o que somos se encontra naquela ilha. A explicação dos feiticeiros diz que a ilha do tonal é feita por nossa percepção, que foi treinada para focalizar-se em certos elementos; cada um desses elementos e todos juntos constituem nossa visão de mundo. O trabalho do mestre, no que se refere à percepção do aprendiz, consiste em reorganizar todos os elementos da ilha em uma metade da bolha. A essa altura você já deve ter compreendido que limpar e reorganizar a ilha do tonal significa reagrupar todos os seus elementos do lado da razão. Meu trabalho tem sido desorganizar sua visão comum, não destruí-la, mas obrigá-la a passar para o lado da razão. Você fez isso melhor do que qualquer pessoa que eu conheça.
Ele desenhou um c√≠rculo imagin√°rio na pedra e dividiu-o em dois, num di√Ęmetro vertical. Disse que a arte de um mestre era obrigar o disc√≠pulo a agrupar sua vis√£o do mundo na metade direita da bolha.
– Por que a metade direita? ‚Äď perguntei.
– √Č esse o lado do tonal. O mestre sempre se dirige para esse lado, e, apresentando ao aprendiz de um lado o caminho do guerreiro, obriga-o √† seriedade e a ser razo√°vel, √† for√ßa de car√°ter e de corpo; e apresentando-lhe de outro lado situa√ß√Ķes inimagin√°veis mas reais, com as quais o aprendiz n√£o pode lidar, obriga-o a compreender que sua raz√£o, embora seja uma coisa maravilhosa, s√≥ pode abranger uma √°rea pequena. Uma vez que o guerreiro enfrenta sua incapacidade de raciocinar tudo, ele se dar√° ao trabalho de fortalecer e defender sua raz√£o vencida, e para isso convocar√° tudo o que possui em torno dela. O mestre consegue isso martelando-o impiedosamente, at√© que sua vis√£o do mundo seja a metade da bolha. A outra metade, a que foi limpa, pode ent√£o ser reinvindicada por algo que os feiticeiros chama de vontade. Podemos explicar isso melhor dizendo que o trabalho do mestre √© limpar uma metade da bolha e reorganizar tudo na outra metade. O trabalho do bem-feitor ser√° ent√£o abrir a bolha do lado limpo. Uma vez rompido o selo, o guerreiro nunca ser√° mais o mesmo. Ele tem ent√£o o comando de sua totalidade. A metade da bolha √© o centro final da raz√£o, o tonal. A outra metade √© o centro final da vontade, o nagual. √Č esta a ordem que deve prevalecer; qualquer outra disposi√ß√£o √© tola e mesquinha, pois contraria nossa natureza; rouba-nos nossa heran√ßa m√°gica e nos reduz a zero.

p. 251-3
Não há meio de se chegar à explicação dos feiticeiros a não ser que se tenha usado o nagual de boa vontade, ou melhor, a não ser que se tenha usado de boa vontade o tonal para fazer nossos atos terem sentido no nagual. Outro meio de esclarecer tudo isso é dizer que a visão do tonal deve prevalecer se se pretende utilizar o nagual do modo como o utilizam os feiticeiros.
(…)
A ordem em nossa percep√ß√£o √© do reino exclusivo do tonal; somente ali podem os atos ter uma sequ√™ncia; somente ali s√£o eles como escadas cujos degraus podem ser contados. N√£o h√° nada disso como o nagual. Portanto, a vis√£o do tonal √© um instrumento, e como tal √© n√£o somente o melhor instrumento, mas o √ļnico que temos. Ontem √† noite a sua bolha de percep√ß√£o abriu-se e suas asas estenderam-se. Nada mais h√° para dizer a respeito. √Č imposs√≠vel explicar o que lhe aconteceu, portanto n√£o vou tent√°-lo, e nem voc√™ tampouco deve tentar faz√™-lo. Devia bastar dizer que as asas de sua percep√ß√£o foram feitas para tocar sua totalidade. Ontem √† noite voc√™ foi do nagual ao tonal, para l√° e para c√° uma por√ß√£o de vezes. Foi lan√ßado duas vezes, de modo a n√£o deixar possibilidade de erro. Da segunda vez voc√™ experimentou o impacto pleno da viagem ao desconhecido. E a sua percep√ß√£o estendeu suas asas quando algo em voc√™ percebeu sua verdadeira natureza. Voc√™ √© um aglomerado. Esta √© a explica√ß√£o dos feiticeiros. O nagual √© indescrit√≠vel. Todos os sentimentos e seres e eus poss√≠veis flutuam nele como barca√ßas, pacatas, inalteradas, para sempre. A√≠ a cola da vida liga algumas delas. Voc√™ mesmo descobriu isso ontem √† noite, e Pablito tamb√©m, e Genaro tamb√©m, da vez que ele viajou para o desconhecido, e eu tamb√©m. Quando a cola da vida junta esses sentimentos, um ser √© criado, um ser que perde o senso de sua verdadeira natureza e fica ofuscado pela claridade e barulho da zona onde as coisas pairam, o tonal. O tonal √© onde existe toda a organiza√ß√£o unificada. Um ser entra no tonal uma vez que a for√ßa vital juntou todos os sentimentos necess√°rios. Eu lhe disse uma vez que o tonal come√ßa no nascimento e termina na morte; disse isso porque sei que assim que a for√ßa vital deixa o corpo todas essas consci√™ncias isoladas se desintegram e voltam para o lugar de onde vieram, o nagual. O que o guerreiro faz viajando para o desconhecido √© muito parecido com morrer, a n√£o ser que seu aglomerado de sentimentos isolados n√£o se desintegra, e sim expande-se, sem perder a uni√£o. Na morte, por√©m, eles mergulham profundamente e se movem independentemente, como se nunca tivessem formado uma unidade.
Eu queria dizer-lhe que suas explica√ß√Ķes correspondiam √† minha experi√™ncia. Mas ele n√£o me deixou falar.
– N√£o h√° meio de nos referirmos ao desconhecido ‚Äď disse ele. ‚Äď S√≥ podemos presenci√°-lo. A explica√ß√£o dos feiticeiros diz que cada um de n√≥s tem um centro do qual se pode presenciar o nagual, que √© a vontade. Assim, um guerreiro pode aventurar-se no nagual e deixar que seu aglomerado se arrume e rearrume da maneira que for poss√≠vel. J√° lhe disse que a express√£o do nagual √© um assunto pessoal. Quis dizer que cabe ao pr√≥prio guerreiro individual dirigir a arruma√ß√£o e rearruma√ß√Ķes daquele aglomerado. A forma humana ou o sentimento humano √© o original, talvez seja a forma mais doce de todas para n√≥s; no entanto, existe um n√ļmero incont√°vel de formas alternativas que o aglomerado pode adotar. J√° lhe disse que um feiticeiro pode adotar qualquer forma que quiser. Isso √© verdade. Um feiticeiro que tenha a posse da totalidade de si mesmo pode dirigir as partes de seu conglomerado para se unirem de qualquer maneira conceb√≠vel. A for√ßa vital √© o que torna poss√≠vel toda essa embaralhada. Uma vez exaurida a for√ßa vital, n√£o h√° mais meio de se reunir esse aglomerado. Chamei esse aglomerado de bolha da percep√ß√£o. Tamb√©m disse que ela est√° selada, hermeticamente fechada, e que nunca se abre at√© o momento de nossa morte. No entanto, poderia ser for√ßada a abrir-se. Os feiticeiros obviamente aprenderam esse segredo e, embora nem todos cheguem √† totalidade de seus seres, sabem a respeito dessa possibilidade. Sabem que a bolha se abre somente quando a pessoa mergulha no nagual.

p. 255-7
– Fazer a raz√£o sentir-se segura √© sempre a tarefa do mestre ‚Äď disse ele. ‚Äď Ludibriei sua raz√£o fazendo-a crer que o tonal era respons√°vel e previs√≠vel. Genaro e eu nos temos esfor√ßado para lhe dar a impress√£o de que somente o nagual estava al√©m do √Ęmbito da explica√ß√£o; a prova de que tivemos √™xito nisso √© que neste momento lhe parece, a despeito de tudo por que voc√™ passou, que ainda existe um centro que voc√™ pode chamar de seu, a sua raz√£o. Isso √© uma miragem. Sua preciosa raz√£o √© apenas um centro de montagem, um espelho que reflete alguma coisa que est√° fora dela. Ontem √† noite voc√™ presenciou n√£o apenas o nagual indescrit√≠vel, como ainda o tonal indescrit√≠vel. O √ļltimo cap√≠tulo da explica√ß√£o dos feiticeiros diz que a raz√£o apenas reflete uma ordem exterior, e que a raz√£o nada sabe a respeito dessa ordem; n√£o pode explic√°-la, do mesmo modo como n√£o pode explicar o nagual. A raz√£o s√≥ pode presenciar os efeitos do tonal, mas nunca poderia compreend√™-lo, nem desemaranh√°-lo. O simples fato de estarmos pensando e falando mostra uma ordem que seguimos sem nunca saber como o fazemos, nem o que a ordem ser√°.
Mencionei então a ideia das pesquisas do homem ocidental sobre o funcionamento do cérebro como uma possibilidade de explicar o que era essa ordem. Ele observou que tudo o que essa pesquisa fazia era atestar que algo estava acontecendo.
– Os feiticeiros fazem a mesma coisa com a vontade ‚Äď disse ele. ‚Äď Dizem que atrav√©s da vontade podem presenciar os efeitos do nagual. Agora, posso acrescentar que, atrav√©s da raz√£o, n√£o importa o que fizermos com ela, ou como o fizermos, estaremos simplesmente presenciando os efeitos do tonal. Em ambos os casos n√£o h√° esperan√ßa jamais de entender ou explicar o que √© que estamos presenciando. Ontem √† noite foi a primeira vez que voc√™ voou nas asas de sua percep√ß√£o. Voc√™ ainda era muito t√≠mido. Aventurou-se apenas na faixa da percep√ß√£o humana. Um feiticeiro pode usar essas asas para tocar outras sensibilidades, a de um corvo, por exemplo, a de um coiote, de um grilo, ou a ordem de outros mundos naquele espa√ßo infinito.
(…)
– Chegamos √† √ļltima parte da explica√ß√£o dos feiticeiros ‚Äď prosseguiu. ‚Äď Ontem √† noite Genaro e eu lhe mostramos os dois √ļltimos pontos que perfazem a totalidade do homem, o nagual e o tonal. Um dia eu lhe disse que esses dois pontos ficavam fora de n√≥s, e no entanto n√£o ficavam. √Č este o paradoxo dos seres luminosos. O tonal de cada um de n√≥s n√£o √© mais que o reflexo daquele vazio indescrit√≠vel cheio de ordem; o nagual de cada um de n√≥s n√£o √© mais que um reflexo daquele vazio indescrit√≠vel que cont√©m tudo. Agora voc√™ deve sentar-se no lugar predileto de Genaro at√© o crep√ļsculo; at√© l√° voc√™ deve ter colocado no devido lugar a explica√ß√£o dos feiticeiros. Sentado aqui, agora, voc√™ nada tem a n√£o ser a for√ßa de sua vida que une aquele aglomerado de sentimentos.
Ele se levantou.
– A tarefa de amanh√£ √© mergulhar no desconhecido sozinho, enquanto Genaro e eu o observamos, sem interferir ‚Äď disse ele. ‚Äď Sente-se aqui e desligue seu di√°logo interior. Voc√™ pode conseguir o poder necess√°rio para abrir as asas da sua percep√ß√£o e voar para aquele infinito.

p. 266-267
– Estamos todos sozinhos, Carlitos ‚Äď disse Dom Genaro baixinho. ‚Äď √Č o nosso estado.
Senti em minha garganta a ang√ļstia de minha paix√£o pela vida e por aqueles que me eram caros; recusava-me a despedir-me deles.
– Estamos s√≥s ‚Äď disse Don Juan. ‚Äď Mas morrer sozinho n√£o √© morrer em solid√£o.
(…)
Don Juan olhou para mim. Eu nunca vira tanta bondade em seus olhos. Ele me disse que um guerreiro se despedia agradecendo a todos aqueles que tivessem tido um gesto de bondade ou de cuidado para com ele (…).
(…)
– Um guerreiro reconhece sua dor, mas n√£o se entrega a ela ‚Äď disse Don Juan. ‚Äď Assim, o estado de esp√≠rito do guerreiro que penetra no desconhecido n√£o √© de tristeza; pelo contr√°rio, ele est√° alegre porque se sente humilhado diante de sua grande boa sorte, confiante em que seu esp√≠rito √© impec√°vel e, acima de tudo, plenamente consciente de sua efici√™ncia. A alegria de um guerreiro vem de ter aceitado seu destino, e de ter avaliado lealmente o que o espera.

p. 269-271
Ele se dirigiu a mim em particular e disse que uma vez eu lhe dissera que a vida de um guerreiro era fria e solitária e sem sentimentos. Acrescentou que até aquele momento preciso eu estava convencido de que era assim.
– A vida de um guerreiro n√£o pode ser fria e solit√°ria e sem sentimentos ‚Äď disse ele ‚Äď porque √© baseada na afei√ß√£o, na dedica√ß√£o e na lealdade a seus queridos. E quem, voc√™ pode perguntar, √© o seu querido? Vou mostrar-lhe agora.
Dom Genaro levantou-se e andou devagar para um lugar completamente plano diante de n√≥s, a uns tr√™s metros de dist√Ęncia. Ali fez um gesto estranho. Mexeu as m√£os como se estivesse espanando terra do peito para a barriga. A√≠ aconteceu uma coisa esquisita. Um lampejo de luz quase impercept√≠vel atravessou-o; vinha do ch√£o e pareceu acender todo o corpo dele. Fez como que uma pirueta, ou melhor, um mergulho para tr√°s e caiu sobre o peito e os bra√ßos. Seu movimento fora executado com tal precis√£o e per√≠cia que ele parecia um ser sem peso, uma criatura como um verme, que dera uma volta sobre si. Quando estava no ch√£o, executou uma s√©rie de movimentos do outro mundo. Deslizou alguns cent√≠metros acima do solo, ou rolou sobre ele como se estivesse deitado sobre rolamentos; ou nadou descrevendo c√≠rculos e voltando com a rapidez e agilidade de uma enguia no mar.
Meus olhos começaram a envesgar em certo momento e aí, sem qualquer transição, eu estava vendo uma bola de luminosidade deslizando de um lado para o outro sobre algo que parecia ser o chão de um rinque de patinação no gelo com mil luzes brilhando sobre ele.
O espetáculo era sublime. Aí a bola de fogo parou e ficou imóvel. Uma voz sacudiu-me e distraiu minha atenção. Era Dom Juan falando. A princípio não entendi o que ele estava dizendo. Tornei a olhar para a bola de fogo; distingui Dom Genaro deitado no chão com os braços e as pernas estirados.
A voz de Don Juan era muito clara. Pareceu engatilhar alguma coisa em mim e comecei a escrever.
– O amor de Genaro √© o mundo ‚Äď disse ele. ‚Äď Agora mesmo ele estava abra√ßando esta terra enorme, mas, como ele √© t√£o pequeno, o mais que pode fazer √© nadar nela. Mas a terra sabe que Genaro a ama e dedica-lhe seus cuidados. √Č por isso que a vida de Genaro √© cheia at√© a borda e seu estado, esteja onde estiver, ser√° de fartura. Genaro percorre os caminhos de seu amor e, onde quer que esteja, √© completo.
Dom Juan estava agachado em nossa frente. Ele afagava a terra, com delicadeza.
– Esta √© a predile√ß√£o de dois guerreiros ‚Äď disse ele. ‚Äď Esta terra, este mundo. Para um guerreiro, n√£o pode haver amor maior.
Dom Genaro levantou-se e agachou-se ao lado de Dom Juan um momento, enquanto os dois nos olhavam fixamente, e depois, ao mesmo tempo, sentaram-se de pernas cruzadas.
– Somente se a pessoa ama esta terra com uma paix√£o constante √© que pode deixar sua tristeza ‚Äď disse Don Juan. ‚Äď Um guerreiro √© sempre alegre porque seu amor √© inalter√°vel e sua amada, a terra, o abra√ßa e lhe concede d√°divas inconceb√≠veis. A tristeza pertence apenas √†queles que detestam aquilo mesmo que abriga seus seres.
Dom Juan afagou a terra com carinho.
РEste lindo ser, que é vivo até suas profundezas e compreende todos os sentimentos, aliviou-me, curou-me de minhas dores e por fim, quando finalmente compreendi o meu amor por ela, ensinou-me a liberdade.
Ele parou. O silêncio em volta de nós era assustador. O vento soprava suavemente e aí ouvi o latido distante de um cão solitário.
– Escute esse latido ‚Äď continuou Dom Juan. ‚Äď √Č assim que a minha amada terra me est√° ajudando agora a mostrar-lhe esse √ļltimo ponto. Esse latido √© a coisa mais triste que se pode ouvir.
Ficamos calados um momento. O latido daquele c√£o solit√°rio era t√£o triste e a quietude em volta de n√≥s t√£o intensa que senti uma ang√ļstia entorpecente. Aquilo me fez pensar em minha pr√≥pria vida, minha tristeza, o meu n√£o-saber para onde ir, o que fazer.
– O latido daquele c√£o √© a voz noturna do homem ‚Äď disse Don Juan. ‚Äď Vem de uma casa naquele vale para o sul. Um homem est√° gritando por interm√©dio de seu c√£o, pois s√£o escravos companheiros de toda vida, sua tristeza, seu t√©dio. Ele est√° implorando √† morte que v√° libert√°-lo das correntes cacetes e feias de sua vida.
Dom Juan com suas palavras tocara num ponto que me perturbava muito. Senti que ele estava falando diretamente para mim.
– Aquele latido e a solid√£o que ele provoca falam dos sentimentos dos homens ‚Äď continuou ele. ‚Äď Homens para quem uma vida inteira foi como uma tarde de domingo, uma tarde que n√£o foi de todo desgra√ßada, mas meio quente e inc√īmoda e vazia. Eles suaram e se afligiram muito. N√£o sabiam para onde ir, nem o que fazer. Aquela tarde deixou-os apenas com a recorda√ß√£o de aborrecimentos mesquinhos e t√©dio, e depois de repente passou; j√° era noite.
Repetiu uma hist√≥ria que eu lhe contara uma vez sobre um homem de setenta e dois anos que reclamava porque sua vida fora t√£o curta que lhe parecia que ainda na v√©spera ele era menino. O homem me dissera: ‚ÄúLembro-me do pijama que eu usava quando tinha dez anos Parece que s√≥ se passou um dia. Aonde foi o tempo?‚ÄĚ
– O ant√≠doto que mata esse veneno est√° aqui ‚Äď disse Dom Juan, afagando a terra. ‚Äď A explica√ß√£o dos feiticeiros n√£o pode de todo libertar o esp√≠rito. Voc√™s dois, por exemplo, alcan√ßaram a explica√ß√£o dos feiticeiros, mas n√£o faz diferen√ßa que voc√™s a conhe√ßam. Est√£o mais sozinhos do que nunca, porque, sem um amor constante pelo ser que lhes d√° abrigo, estar sozinho √© a solid√£o. Somente o amor por este ser esplendoroso pode dar a liberdade ao esp√≠rito do guerreiro; e a liberdade √© alegria, efici√™ncia, e ren√ļncia diante de qualquer dificuldade. Esta √© a √ļltima li√ß√£o. Fica sempre para o √ļltimo momento, o momento de solid√£o final em que o homem enfrenta sua morte e solid√£o. S√≥ ent√£o √© que faz sentido.

p. 271
– O crep√ļsculo √© a fresta entre os mundos ‚Äď disse Don Juan. ‚Äď √Č a porta para o desconhecido.

p. 273
(O autor e sua obra)
Segundo Dom Juan, velho feiticeiro mexicano da tribo dos yaquis ‚Äď ao lado de quem Carlos Castaneda passou mais de dez anos tentando adquirir a experi√™ncia de um ‚Äúhomem de conhecimento‚ÄĚ -, a hist√≥ria pessoal nada mais √© que uma forma velada de controle m√ļtuo, onde o indiv√≠duo atua de forma r√≠gida e mec√Ęnica, atado que est√° √† pr√≥pria exist√™ncia. Assim, somente aquele que for capaz de transformar a sua vida numa n√©voa indefinida poder√° despertar para o in√©dito, o inesperado.

 

Fonte: Miradas.SoyLocoPorTi.org.br

O zen, a seta e o alvo

zen O zen, a seta e o alvo

Enso. Shibayana Zenkei (1894-1974)

Trechos de A arte cavalheiresca do arqueiro zen, de Eugen Herrigel (SP: Pensamento, 2011).

‚ÄúN√≥s, os mestres arqueiros, dizemos: um tiro, uma vida! Talvez lhe seja dif√≠cil compreender isso, mas posso ajud√°-lo com outra imagem que expressa a mesma viv√™ncia. N√≥s dizemos que com a extremidade superior do arco o arqueiro trespassa o c√©u; na inferior est√° suspensa, por um fio de seda, a terra. Se o tiro for disparado com viol√™ncia, existe o perigo de que o fio se rompa. Para o voluntarioso e agressivo, o abismo ser√°, ent√£o, definitivo, e ele permanecer√° no centro fatal, entre o c√©u e a terra, sem jamais vir a conhecer a salva√ß√£o.‚ÄĚ
‚ÄúEnt√£o, o que devo fazer?‚ÄĚ
‚ÄúTem que aprender a esperar.‚ÄĚ
‚ÄúComo se aprende a esperar?‚ÄĚ
‚ÄúDesprendendo-se de si mesmo, deixando para tr√°s tudo o que tem e o que √©, de maneira que do senhor nada restar√°, a n√£o ser a tens√£o sem nenhuma inten√ß√£o.‚ÄĚ

[p. 51]

Temos que ser ágeis para alcançar a liberdade e livres para recuperar a agilidade primordial. Essa agilidade primordial é diferente de tudo o que se entende vulgarmente por agilidade mental.
Entre o estado de relaxamento psíquico de um lado e o da liberdade espiritual por outro, existe uma diferença de nível que o ato de respirar, por si só, não pode compensar. Para perdermos o eu, é necessário cortarmos todas as amarras, sejam quais forem, para que a alma, submergida em si mesma, recupere todo o poder da sua indizível origem.

[p. 54]

O aluno que tenha todas as possibilidades de progredir encontra-se diante de um perigo que √© muito dif√≠cil de ser evitado durante seu desenvolvimento. N√£o se trata de se perder num narcisismo est√©ril, porque o oriental tem pouca predisposi√ß√£o √† egolatria, mas de achar que o que j√° sabe √© suficiente, principalmente se obteve √™xito e fama naquilo que fez. Assim, ele corre o risco de se comportar como se a exist√™ncia art√≠stica fosse uma forma de vida nascida e justificada espontaneamente em si mesma. O mestre sabe desse perigo. Cautelosamente, com sutis recursos psicol√≥gicos, trata de prevenir a tempo e de liberar o aluno de si mesmo. Faz com que ele perceba, sem insistir, como se se tratasse de algo secund√°rio ‚Äď e referindo-se √† pr√≥pria experi√™ncia do aluno -, que a cria√ß√£o aut√™ntica s√≥ √© poss√≠vel num estado de desprendimento de si mesmo, durante o qual o criador n√£o est√° presente como¬†ele mesmo.

Somente o espírito deve estar presente, numa espécie de vigília que prescinde do eu mesmo e que pervade todos os espaços, todas as profundezas, com olhos que ouvem e ouvidos que veem.

[p. 65]

‚ÄúCompreende agora‚ÄĚ, perguntou-me o mestre certo dia, depois de eu haver dado um tiro especialmente feliz, ‚Äúo que quer dizer¬†algo¬†dispara,¬†algo¬†acerta?‚ÄĚ

‚ÄúTemo‚ÄĚ, respondi-lhe, ‚Äúque j√° n√£o compreendo nada. At√© o mais simples me parece o mais confuso. Sou eu quem estira o arco ou √© o arco que me leva ao estado de m√°xima tens√£o? Sou eu quem acerta no alvo ou √© o alvo que acerta em mim? O¬†algo¬†√© espiritual, visto com os olhos do corpo, ou √© corporal, visto com os do esp√≠rito? S√£o as duas coisas ao mesmo tempo ou nenhuma? Todas essas coisas, o arco, a flecha, o alvo e eu estamos enredados de tal maneira que n√£o consigo separ√°-las. E at√© o desejo de faz√™-lo desapareceu. Porque, quando seguro o arco e disparo, tudo fica t√£o claro, t√£o un√≠voco, t√£o ridiculamente simples‚Ķ‚ÄĚ

‚ÄúNesse exato momento‚ÄĚ, interrompeu-me o mestre, ‚Äúa corda do arco acaba de atravess√°-lo por inteiro.‚ÄĚ

[p. 86]

‚ÄúMas devo advertir-lhes de uma coisa: ao longo desses anos, voc√™s dois sofreram uma modifica√ß√£o profunda. Essa √© a consequ√™ncia do tiro com arco: uma luta do arqueiro contra si mesmo, que lhe penetra nas √ļltimas profundidades. Talvez ainda n√£o se tenham dado conta do que estou lhes dizendo, mas sem d√ļvida concordar√£o comigo quando se reencontrarem com seus amigos. N√£o haver√° a mesma vibra√ß√£o em un√≠ssono de antes, pois voc√™s passaram a ver as coisas de maneira diferente e a medi-las com par√Ęmetros at√© ent√£o n√£o utilizados. O que estou lhes dizendo aconteceu a mim e a todos os que s√£o tocados pelo esp√≠rito dessa arte.‚ÄĚ

[p. 90]

O mestre espadachim reencontra a seguran√ßa ing√™nua do principiante, aquela serenidade perdida no in√≠cio da aprendizagem, mas recuperada e por ele absorvida como um tra√ßo dominante da sua personalidade. Por√©m, ao contr√°rio do aprendiz, √© reservado, sereno, modesto, despido de qualquer presun√ß√£o. Entre o est√°gio de noviciado e de ‚Äúmestrado‚ÄĚ, transcorreram longos e fecundos anos de incans√°veis exerc√≠cios. Sob a influ√™ncia do Zen,¬†a habilidade se espiritualizou¬†e o praticante dessas artes se transformou, vencendo-se a si mesmo e de si mesmo se libertando por etapas. Desembainha a espada apenas nos momentos inevit√°veis, porque ela se converteu na sua alma, evitando, por√©m, lutar contra um advers√°rio indigno, que se vangloria dos seus m√ļsculos, n√£o deixando de receber, por causa disso, um sorriso que o acusa de covardia. Mas tamb√©m pode acontecer que, movido por um grande respeito pelo advers√°rio, convida-o a uma luta que terminar√° com a morte deste. Por detr√°s dessas atitudes est√£o os sentimentos que caracterizam a √©tica do samurai, esse incompar√°vel¬†caminho do cavaleiro¬†conhecido pelo nome de¬†bushid√ī. Mais alto do que a gl√≥ria, a vit√≥ria e a vida, o mestre espadachim coloca a espada da Verdade, que ele conhece e que o julga.

Como o principiante, ele n√£o conhece o medo, mas, ao contr√°rio do disc√≠pulo, torna-se cada vez mais completamente indiferente a tudo o que possa amedront√°-lo*. Atrav√©s de longos anos dedicados √† medita√ß√£o ele descobriu que, no fundo, a vida e a morte s√£o uma √ļnica coisa, e que ambas pertencem ao mesmo plano do destino. Ele n√£o sente nem a ang√ļstia de viver, nem o temor da morte. Apraz-lhe ‚Äď e isso √© caracter√≠stico do esp√≠rito Zen ‚Äď viver no mundo, mas est√° sempre preparado para abandon√°-lo, sem que a ideia da morte o perturbe. N√£o foi por casualidade que o samurai escolheu a flor de cerejeira como o seu s√≠mbolo. Assim como a p√©tala, refletindo o p√°lido raio de sol matinal, se desprende da flor, o homem intr√©pido se desprende, silenciosa e impassivelmente, da exist√™ncia.

Viver sem medo da morte não significa que, durante as horas felizes, nos gabemos de não tremer diante dela, nem que possamos afirmar que a enfrentamos com segurança. Porém, quem domina a vida e a morte está livre de todo temor, a tal ponto que não é mais capaz de experimentar a sensação de medo. E quem não conhece, por experiência própria, o poder da meditação séria e prolongada não pode imaginar as vitórias sobre nós mesmos que podemos obter. Seja como for, o mestre verdadeiro revela sua coragem com atitudes, jamais com palavras. Quem o conhece não pode deixar de se impressionar profundamente. São raras as pessoas que conseguem manter uma inabalável impassibilidade, e que só por isso devem ser chamadas de mestres.

* A alegria de viver é um dos mais venerados princípios do Zen-budismo, pois só através dela seus adeptos sabem que podem vencer o seu inimigo mais forte: o medo. (N. do T.)

[p. 99-101]

Todo mestre de uma arte influenciada pelo Zen √© como um rel√Ęmpago gerado pela nuvem da verdade universal. Essa verdade est√° presente na livre mobilidade do seu esp√≠rito e naquilo que se chama de¬†algo, onde ela se mostra na sua plenitude e ess√™ncia originais. Nessa fonte que jamais seca, suas potencialidades adormecidas se nutrem de uma compreens√£o da Verdade que, para ele e para os outros atrav√©s dele, se renova perpetuamente.

Por√©m, pode ocorrer que a suprema liberdade n√£o se converta numa necessidade imperiosa para o mestre. Apesar de haver se submetido pacientemente a uma dura disciplina, n√£o alcan√ßou ainda o n√≠vel onde estaria imerso na compenetra√ß√£o do Zen, de maneira que, conhecendo apenas horas felizes, sua vida seja guiada por ele. Na hip√≥tese de que essa meta o atraia, tem de voltar a percorrer o caminho da¬†arte sem arte. Tem que dar o salto em dire√ß√£o √†s origens para que viva a Verdade, com quem est√° intimamente identificado com ela. Tem que voltar a ser aluno, a ser principiante, tem que vencer o √ļltimo e o mais escarpado obst√°culo do caminho, passando por novas metamorfoses. Se sair vitorioso dessa longa jornada, ent√£o seu destino se consumar√° no encontro com a Verdade inquebrant√°vel, com a Verdade que est√° por cima de todas as verdade e com a amorfa origem de todas as origens: o Nada que √© o Tudo. Que ele o devore e dele receba uma nova vida!

[p. 103-4]

 

Fonte: Miradas.SoyLocoPorTi.org.br

Sendo Florescendo

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leve e-feito borboleta

elevado e-feito beija-flor

causa e-feito amor

Si mesmo. Sim esmo.

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“Estudar o Zen √© estudar a si mesmo.

Estudar a si mesmo é se esquecer de si mesmo.

Esquecer de si mesmo √© estar uno com todas as coisas.”¬†Mestre Dogen

 

“Vazio Repleto… Vazio… de descri√ß√Ķes. Repleto… de possibilidades.”

Holo

Honesto

Honra

Hoje

Conto: De nada.

Existia um Deus antes da criação?

“Nada existia. Todo incriado. Nada √©.”

Nada é?

“N√£o existe antes nem depois. Agora √©.”

O que somos ent√£o?

“Cabe a voc√™ descobrir. Mas quem √©s tu, quando n√£o h√° mais voc√™?”

 

por AdriAnowA

Nada de mais…

Elevar é aprofundar-se

Aprofundar é elevar-se

Ao centro-aberto, em todo lugar

 

Antes de tudo, o nada j√° √© Todo… Despidos somos Um… Vazio repleto… De Amor…

√Č uma viagem… em Si.

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Passageiros… a prop√≥sito, de passagem…

No caminho-desafio… das oportunidades…

De se dirigir as pr√≥prias travessias… desta transformadora viagem…

 

Caminhar, mergulhar e voar… Nas asas da Liberdade de Ser… Quem tu √Čs…

N√£o poupe energia para encontrar e preservar a sua paz… Mas sempre repouse e poupe sua energia, se j√° perdeu a paz… Agora √© que se faz e desfaz…¬†