Sobre a Arte de Cuidar

por EM SI: LUGAR DE GRAÇA

“A natureza se explica, a alma se compreende.” Wilhelm Dilthey

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“-Te vejo. – Estou aqui”. Eu amo muito essa expressão, que vem da tradição xamanística da África do Sul: quando as pessoas vão saudar umas às outras, no idioma zulu, eles dizem: “sawubona”, que significa te vejo; e a resposta é “sikhona”, que significa: estou aqui. Eis o coração de uma nova educação: educar pra ver, educar para a presença, educar para cuidar, educar para escutar, educar pra interpretar. É atender o telefone que toca (um telefone tocou na audiência). Toda crise é um telefone que toca e nós precisamos atender, escutar e interpretar, senão vai continuar tocando, as vezes com outros números. Infelizmente, no que denominamos de normose, a patologia da normalidade, afirmamos: “tomou doril, a dor sumiu”. Você vai ao médico com um problema e, quando normótico, a única atitude deste técnico será eliminar o sintoma.

Eu penso numa pessoa que me procurou no consultório com dor nos seios, depois de ter consultado com muitos médicos, em vão. Ela já estava com algumas fantasias catastróficas a respeito. O terapeuta indagou: você pode se colocar no lugar dos seus seios, se identificar e falar como se fora seus seios? Ela então, ao entrar em contato com os seios, imediatamente se conectou com algo que tinha recentemente acontecido: ela tinha se separado do marido e porque ele tinha condições econômicas melhores ela abriu a guarda do filho. Desde então os seios começaram a doer. E quando ela pode fazer a catarse, redecidindo a sua atitude, ela saiu do consultório sem dor. Agora, imagina se ela não tivesse escutado o seu sintoma, se ela não o tivesse interpretado… um dia ela faria uma doença física. Geralmente as doenças começam num plano mais sutil e depois contagia o plano mais concreto, que é o físico.

“Basta a quem basta o que lhe basta,

o bastante de lhe bastar.

A vida é breve, a alma é vasta

Ter é tardar.” Fernando Pessoa

Análise e síntese são dois caminhos complementares de apreensão da realidade, como duas pernas que possibilitam o caminhar por trilhas aliadas do conhecer e do comungar. Enfim, a compreensão implica uma convergência do saber e do ser. Fernando Pessoa afirmava que Deus é um grande intervalo. Antes da pausa para o lanche, façamos novamente uma prática do silêncio, com a coluna ereta, a conexão com o sermão da montanha do instante, com a música dos pássaros, o mantra das águas, as vozes humanas, as paisagens da alma, a pausa – esta pátria doce de quietude – entre a inspiração e a expiração, com um leve sorriso na face. Habitar o agora.

 

Trechos do Texto: Uma breve introdução a arte de cuidar, por Roberto Crema