“Doze passos da mandala” – Adélia Maria Woellner

por EM SI: LUGAR DE GRAÇA

Doze passos da mandala

(I)

Despertei…

Consegui pronunciar

palavras

e tudo começou,

só para perceber

a experiência de existir.

(II)

Encontrei

fronteiras,

segui rumos,

observei belezas e sombras,

só para perceber

que estava em terra firme.

(III)

Andei pelo mundo,

colhendo imagens duplas,

leste, oeste,

norte, sul

(— pra que lado eu vou?).

Com minha própria imagem,

no espelho da vida,

falei comigo,

tanto, tanto,

só para perceber

que eu era uma só.

(IV)

Uni semelhantes

e até estranhos,

me enrosquei,

criei laços,

só para perceber

que precisava buscar

a libertação.

(V)

Ousei invadir

a jaula do meu leão,

só para perceber

que as grades

deixam fluir a luz.

(VI)

Metódica, disciplinada,

persistente,

criei resistências

só para perceber

o prazer de poder mudar.

(VII)

Saltei pelos pratos da balança.

Fui sacudida

em altos e baixos,

só para perceber

que no centro

estava a paz.

(VIII)

Juntei, amealhei,

pensando na eternidade.

Conceitos e coisas

envelheceram,

esgarçaram.

O sino ecoou

em despedida.

Morri um pouco,

só para perceber

o impulso da renovação.

(IX)

Ansiei expansão.

Insisti para encontrar

espaços amplos,

benéficos.

Pintei rosto alegre,

nas folhas do tempo…

Construí morada em lábios de

sorriso.

Na porta da casa,

fiz da flecha

fechadura e proteção.

(X)

Percorri estágios,

montei estruturas,

seduzida pelo poder.

Alcancei o cimo,

olhei em torno,

para enxergar o vazio.

Desci pelo outro lado

da montanha,

só para perceber

o valor

da reconstrução.

(XI)

Percorri o caminho

do meu menino

carregando água,

borrifando, por igual,

gotas nas margens,

alegrando rosas e ervas daninhas,

só para perceber

a partilha

e a natureza saciada e feliz.

(XII)

Mergulhei no mar,

perdi a noção do tempo.

Nele, não era mais eu.

Investiguei profundezas,

me diluí num céu misterioso,

só para perceber

que existem encantamentos.

 

Adélia Maria Woellner é uma senhora poetisa de 79 anos, do qual tenho um grau de parentesco, pois também sou Woellner. Fico feliz por saber que esta veia poética vem de tempos imemoriais…