“Pensamentos da hora da morte” – Rubem Alves

por EM SI: LUGAR DE GRAÇA

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Tive uma amiga, professora da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, que adorava escalar montanhas. Por que escalar uma montanha? Ela respondia: “Porque ela está lá…”. Cada pico coberto de neve lhe era um desafio irresistível!

Pois ela me contou o seguinte: ela e um grupo de amigos escalavam uma montanha gelada, se não me engano no Peru ou no Equador. Os membros do grupo, por segurança, estavam todos amarrados uns nos outros. De repente, um deles escorregou e começou a deslizar encosta abaixo. Os outros foram arrastados com ele. Os alpinistas levam uma mini-picareta amarrada ao pulso. Enquanto ela deslizava montanha abaixo, possivelmente para a morte, não pensou sobre a morte. Não sentiu terror. Começou a pensar irrelevâncias. Seus braços jogados para cima, a picareta pulava de um lado para o outro acima da sua cabeça. E o que ela pensou foi: “Como são perigosas essas picaretas! É preciso fazer algo para diminuir o seu perigo!”. Quatro dos seus amigos morreram. Ela sobreviveu.

Pois algo parecido aconteceu com meu querido amigo Carlos Rodrigues Brandão, que não morreu por pouco. Viajava de ônibus para uma pequena cidade do Triângulo Mineiro. O ônibus se chocou com um caminhão. Ele foi projetado contra o banco da frente e teve vários ossos do rosto fraturados. Sentiu-se sem movimentos e sem sensibilidade no corpo. Imaginou que a medula havia se rompido. O sangue jorrava e escorria pelo rosto. Pensou que iria morrer. Então rezou agradecendo a vida que estava por terminar. Mas repentinamente lhe veio um pensamento: “O Rubem planta uma árvore no seu sítio para cada amigo que morre. E eu não lhe disse qual a árvore que quero que plante para mim. Como é que ele vai fazer? Deveria ter-lhe dito que eu quero que plante uma paineira branca…”.

O Brandão está bem, boca amarrada, comendo por um canudo, chupando sopa fazendo barulho… Já ganhei uma muda de paineira branca, linda e rara. Acho que não vai fazer mal plantá-la agora. A minha árvore já está plantada, com mais de três metros de altura…

 

Trecho do livro (e-book) Ostra Feliz Não Faz Pérola – Rubem Alves