Um Sol Coração

Onde a vida está? Onde tu és?

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Conto Zen: O monge indiferente

Uma velha construiu uma cabana para um monge e o alimentou por vinte anos, como forma de adquirir méritos. Certo dia, como forma de experimentar a sabedoria adquirida pelo monge, a velha pediu à jovem mulher que levava ao monge o alimento todos os dias (já que a velha senhora não podia mais fazer o caminho com freqüência) o abraçasse.

Ao chegar à cabana, a menina encontrou o monge em zazen. Ela abraçou-o e perguntou-lhe se gostava dela. O monge, frio e indiferente, disse de forma dura:

“É como se uma árvore seca estivesse abraçada a uma fria rocha. Está tão frio como o mais rigoroso inverno, não sinto nenhum calor.”

A jovem retornou, e disse o que o monge fez. A velha, irritadíssima, foi até lá, expulsou o monge e queimou a cabana. Enquanto ele se afastava, ela gritou:

“E eu, que passei vinte anos sustentando um idiota!”

 

Meu insight do momento: Quanto tempo passamos sustentando e preservando uma imagem de si mesmo, representando um ideal que não somos? Ser é estar sendo…

Conto zen: Equanimidade

Durante as guerras civis no Japão feudal, um exército invasor poderia facilmente dizimar uma cidade e tomar controle. Numa vila, todos fugiram apavorados ao saberem que um general famoso por sua fúria e crueldade estava se aproximando – todos exceto um mestre Zen, que vivia afastado.

Quando chegou à vila, seus batedores disseram que ninguém mais estava lá, além do monge. O general foi então ao templo, curioso em saber quem era tal homem. Quando ele lá chegou, o monge não o recebeu com a normal submissão e terror com que ele estava acostumado a ser tratado por todos; isso levou o general à fúria.

“Seu tolo!!” ele gritou enquanto desembainhava a espada, “não percebe que você está diante de um homem que pode trucidá-lo num piscar de olhos?!?”

Mas o mestre permaneceu completamente tranquilo.

“E você percebe,” o mestre replicou calmamente, “que você está diante de um homem que pode ser trucidado num piscar de olhos?”

 

Meu insight do momento: Podemos tudo já que somos responsáveis por tudo. Mas este “tudo” é prudente, respeitável e justo? Podemos ser o que quisermos… exceto deixar de ser aquele que somos.

Conto Zen: O cego e a lanterna

Quando saía da casa de um amigo tarde da noite, um homem cego recebeu deste uma lanterna. O cego disse, surpreso:

“Sou cego. De que me vale levar uma lanterna?”

“Sei disso, mas como vais caminhar no escuro, a lanterna evitará que outras pessoas esbarrem em vós,” disse o solícito amigo, acendendo a vela dentro da lanterna.

O homem partiu levantando a lanterna à sua frente. Confiante no fato de que ela evitaria acidentes com outras pessoas, ele caminhou sem medo ou relutância ao longo da estrada. Nunca ele se sentiu tão confiante, sabendo que a lanterna era um eficiente aviso de sua presença no caminho.

Entretanto, para sua completa surpresa, de repente alguém esbarra fortemente nele, que cai ao chão. Irritado com isso, o cego grita:

“Não podeis ver uma lanterna aproximando-se?! Com certeza és mais cego do que eu!!!”

Mas o outro homem disse confuso:

“Mas como poderia ter visto uma lanterna apagada nesta noite escura?”

Todo aquele tempo o cego carregava a lanterna inutilmente, pois a vento tinha apagado a vela há muito…

 

Meu insight do momento: Somos lanternas, preparando-se para acender a vela. Somos lanternas, prontos para acender a vela. Somos lanternas com a vela acesa. Nada temos, por isso mesmo, ter fé na vela que ilumina o caminho da lanterna.

Conto Zen: Apenas uma Estátua

Certa vez Tan-hsia, monge da dinastia Tang, fez uma parada em Yerinji, na Capital, cansado e com muito frio. Como era impossível conseguir abrigo e fogo, e como era evidente que não sobreviveria à noite, retirou em um antigo templo uma das imagens de madeira entronizadas de Buda, rachou-a e preparou com ela uma fogueira, assim aquecendo-se.

O monge guardião de um templo mais novo próximo, ao chegar ao local de manhã e ver o que tinha acontecido, ficou estarrecido e exclamou: “Como ousais queimar a sagrada imagem de Buda?!?”

Tan-hsia olhou-o e depois começou a mexer nas cinzas, como se procurasse por algo, dizendo: “Estou recolhendo as Sariras (*) de Buda…” “Mas,” disse o guardião confuso “este é um pedaço de madeira! Como podes encontrar Sariras em um objeto de madeira?”

“Nesse caso,” retorquiu o outro “sendo apenas uma estátua de madeira, posso queimar as duas outras imagens restantes?”

(*) Sariras – tais objetos são depósitos minerais – como pequenas pedras – que sobram de alguns corpos cremados, e que segundo a tradição foram encontrados após a cremação do corpo de Gautama Buda, sendo considerados objetos sagrados.

Koan: Em que parte de um objeto fica o reverenciado Sagrado?

Conto Zen: Não pense bem, não pense mal

Quando atingiu a iluminação completa o sexto Patriarca (Hui-Neng) recebeu do quinto Patriarca (Hung-Jen) o manto e a tigela, simbólicos da sucessão de grandes mestres a partir de Gautama Buddha, geração após geração.

O monge-chefe do templo chamado Jin-shu, cheio de rancor, perseguiu Hui-neng com a intenção de retirar-lhe estes tesouros. O Sexto Patriarca colocou o manto e a tigela sobre uma pedra ao lado da estrada e disse a Jin-shu:

“Estes objetos apenas simbolizam uma crença. Não há motivos para se brigar por eles. Se desejais possuí-los, tome-os agora.”

Quando Jin-shu tentou erguer os objetos eles pareceram-lhe tão pesados como uma montanha. Ele não pode tomá-los. Tremendo de vergonha ele disse:

“Eu vim em busca de esclarecimento, e não de tesouros materiais. Por favor, ensinai-me.”

O Sexto Patriarca disse:

“Quando vós não pensais no “Bem” e quando vós não pensais no “Mal”, em qual momento está vossa verdadeira natureza?”

Ao ouvir tais palavras Jin-shu atingiu o Satori. Suor escorreu de todo seu corpo. Ele gritou e fez uma reverência, dizendo:

“Vós me destes as secretas palavras e os secretos significados. Há ainda alguma parte mais profunda de vosso ensinamento?”

Hui-neng disse:

“O que vos disse não é um segredo, em verdade. Quando compreendes vosso verdadeiro Eu o segredo já então lhe pertence.”

Jin-shu disse: “Estive sob a orientação do quinto patriarca por muitos anos mas não pude compreender meu verdadeiro Eu até agora. Através de vosso ensinamento eu atingi a fonte. Uma pessoa bebe água e sabe por si mesma se esta é fria ou quente. Posso lhe considerar meu mestre?”

Hui-neng replicou: “Estudamos ambos sob o mesmo quinto patriarca. Continue chamando-o seu mestre, mas apenas guarde em si o que vós mesmos realizastes.”

Conto Zen: Samsara

O monge perguntou ao Mestre:

“Como posso sair do Samsara (a Roda de renascimentos e mortes)?”

O Mestre respondeu:

“Quem te colocou nele?”

Conto Zen: Ponte de pedra

Havia uma famosa ponte de pedra no Monastério de Chao-Chou (Joshu) que era uma atração do lugar. Certa vez um monge viajante afirmou:

“Já ouvi falar sobre a famosa ponte de pedra, mas até agora não a vi. Vejo somente uma tábua.”

“Vedes uma tábua,” confirmou Chao-chou, “e não vedes a ponte de madeira.”

“Então onde está a ponte de pedra?” perguntou o monge.

“Acabastes de cruzá-la”, disse prontamente Chao-Chou.

Conto Zen: Tudo Morre

Quando era jovem, o então monge Ikkyu e seu irmão estavam arrumando o quarto de seu mestre, e num acidente o irmão quebrou a tigela da cerimônia do chá favorita do sábio professor. Ambos ficaram assustados, pois a tigela era muito estimada pelo mestre, pois foi um presente do imperador. Entretanto, Ikkyu disse ao irmão:

“Não se preocupe. Sei como abordar a questão com nosso mestre!”

Juntou os pedaços de cerâmica, escondeu-os no manto, saiu para o jardim do templo e sentou-se a esperar pelo velho sábio. Quando este se aproximou, Ikkyu propôs-lhe um Mondo (uma seqüência de perguntas e respostas):

“Mestre, é dito que todos os seres e todas as coisas no Universo estão fadadas a morrer?”

“Sim,” respondeu o Mestre, “o próprio Buda assim afirmou, e tal conceito é inegável: todas as coisas têm de perecer.”

“Sendo assim, devemos compreender a natureza da impermanência, e superar o sofrimento ignorante pelas perdas que são, afinal, relativas e inevitáveis.”

“Com certeza, tal compreensão faz parte do caminho correto!” disse o mestre feliz pela sagacidade de seu jovem discípulo. Neste momento, Ikkyu retirou os cacos de sua manga, pousou-os à frente do mestre e disse:

“Mestre, sua querida xícara de chá morreu…”

E saiu ligeiro da presença do surpreso sábio…

Conto Zen: O Paraíso

Duas pessoas estavam perdidas no deserto. Elas estavam morrendo de inanição e sede. Finalmente, eles avistaram um alto muro. Do outro lado eles podiam ouvir o som de quedas d’água e pássaros cantando.

Acima eles podiam ver os galhos de uma árvore frutífera atravessando e pendendo sobre o muro. Seus frutos pareciam deliciosos. Um dos homens subiu o muro e desapareceu no outro lado.

O outro, em vez disso, saciou sua fome com as frutas que sobressaíam da árvore ali mesmo, e retornou ao deserto para ajudar outros perdidos a encontrar o caminho para o oásis.

Conto Zen: Buscando por Buda

Um monge pôs-se a caminho de uma longa peregrinação para encontrar Buda. Ele levou muitos anos em sua busca até alcançar a terra onde dizia-se que vivia Buda.

Ao cruzar o sagrado rio que cortava este país, o monge olhava em torno enquanto o barqueiro conduzia o bote. Ele percebeu algo flutuando em sua direção.

Quando o objeto chegou mais perto, ele viu que era um cadáver – e que o morto era ele mesmo!

O monge perdeu todo o controle e deu um grito de dor à visão de si mesmo, rígido e sem vida, flutuando suavemente na corrente do grande rio.

Neste instante percebeu que ali estava começando sua busca pela liberação…

E então ele soube definitivamente que sua procura por Buda havia terminado.