Um Sol Coração

Onde a vida está? Onde tu és?

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“Aprende com o Silêncio” – Jean-Yves Leloup

“Aprende com o silêncio a ouvir os sons interiores da sua alma, a calar-se nas discussões e assim evitar tragédias e desafetos…

Aprende com o silêncio a aceitar alguns fatos que você provocou, a ser humilde deixando o orgulho gritar lá fora, evitar reclamações vazias e sem sentido…

Aprende com o silêncio a reparar nas coisas mais simples, valorizar o que é belo, ouvir o que faz algum sentido…

Aprende com o silêncio que a solidão não é o pior castigo, existem companhias bem piores…

Aprende com o silêncio que a vida é boa, que nós só precisamos olhar para o lado certo, ouvir a música certa, ler o livro certo.

Aprende com o silêncio que tudo tem um ciclo, como as marés que insistem em ir e voltar, os pássaros que migram e voltam ao mesmo lugar, como a Terra que faz a volta completa sobre o seu próprio eixo, complete a sua tarefa.

Aprende com o silêncio a respeitar a sua vida, valorizar o seu dia, enxergar em você as qualidades que você possui, equilibrar os defeitos que você tem e saber que precisa corrigir e enxergar aqueles que você ainda não descobriu.

Aprende com o silêncio a relaxar, mesmo no pior trânsito, na maior das cobranças, na briga mais acalorada, na discussão entre familiares…

Aprende com o silêncio a respeitar o seu “eu”, a valorizar o ser humano que você é, a respeitar o Templo que é o seu corpo, e o Santuário que é a sua vida.

Aprende hoje com o silêncio, que gritar não traz respeito, que ouvir ainda é melhor que muito falar…

Na natureza tudo acontece com poder e silêncio, com um silêncio poderoso; por vezes, o silêncio é confundido com fraqueza, apatia ou indiferença.

Pensa-se que a pessoa portadora dessa virtude está impedida de reclamar seus direitos e deve tolerar com passividade todos os abusos.

Acredita-se que o silêncio não combina com o poder, pois este tem se confundido com prepotência e violência.

O Sol nasce e se põe em profunda quietude; move gigantescos sistemas planetários, mas penetra suavemente pela vidraça de uma janela sem a quebrar.

Acaricia as pétalas de uma rosa sem a ferir, e beija as faces de uma criança adormecida sem a acordar; aí uma vez vamos encontrar na natureza lições preciosas a nos dizer que o verdadeiro poder anda de mãos dadas com a quietude.

As estrelas e galáxias descrevem as suas órbita com estupenda velocidade pelas vias inexploradas do cosmos, mas nunca deram sinal da sua presença pelo mais leve ruído.

O oxigênio, poderoso mantenedor da vida, penetra em nossos pulmões, circula discreto pelo nosso corpo, e nem lhe notamos a presença.

A luz, a vida e o espírito, os maiores poderes do universo, atuam com a suavidade de uma aparente ausência.

Como nos domínios da natureza, o verdadeiro poder do homem não consiste em atos de violência física, quando um homem conquista o verdadeiro poder, toda a antiga violência acaba em benevolência.

A violência é sinal de fraqueza, a benevolência é indício de poder.

Os grandes mestres sabem ser severos e rigorosos sem renegarem a mais perfeita quietude e benevolência.

Deus, que é o supremo poder, age com tamanha quietude que a maioria dos homens nem percebem a Sua ação.

Essa poderosa força, na qual todos estamos mergulhados, mantém o Universo em movimento, faz pulsar o coração dos pássaros, dos bandidos e dos homens de bem, na mais perfeita leveza.

Até mesmo a morte, chega de mansinho e, como hábil cirurgiã, rompe os laços que prendem a alma ao corpo, libertando-a do cativeiro físico.

O verdadeiro poder chega: sem ruído, sem alarde e sem violência.
Sempre que a palavra poder lhe vier à mente, lembre-se do Sol: nasce e se põe em profunda quietude; move gigantescos sistemas planetários, mas penetra suavemente pela vidraça de uma janela e você só sabe pelo calorzinho que ele proporciona.

Acarinha as pétalas de uma flor sem a ferir, beija as faces de uma criança adormecida sem a acordar.

“Bem aventurados os mansos, porque eles possuirão a Terra.”

Fonte: Ventos de Paz

“Cristo e Buda” – Jean-Yves Leloup

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Quando um homem se encontra em um quarto escuro, ele precisa abrir todas as janelas. A janela que se dá para o Oriente e a que se dá para o Ocidente. Nós precisamos de todas as luzes. E hoje em dia, mais que em qualquer época, precisamos da Luz do Buda, e da Luz do Cristo.(…)

O que veremos aqui, não se trata da relação entre Jesus e Buda, mas entre Cristo e o Buda.

Tanto na tradição cristã como na tradição budista, nós fazemos a distinção entre três corpos.

Temos o corpo histórico, Nirmanakaya – é o corpo e a história de Jesus de Nazaré. Que podemos comparar ao corpo e a história de Sidharta Gautama da tribo de Sakyamuni.

Da mesma maneira que Jesus se tornou o Cristo pelo recebimento do Espírito, no momento do seu batizado, Sidharta torna-se o Buda, aquele cujo estado búdico está desperto, no momento do seu Despertar. Aqui falamos do Corpo Desperto, ou do Corpo do Cristo, o Meshiah – aquele que é habitado pelo Espírito.

Além deste corpo histórico e deste corpo transfigurado, ou desperto, existe o corpo essencial, o Dharmakaya, que na tradição cristã falaremos do Logos, do Verbo, da Luz pela qual tudo existe.

É importante nos lembrarmos destes três corpos, ou dessas três dimensões, porque muitas vezes comparamos aquilo que não é comparável: O corpo histórico de Jesus, com a Budeidade, ou estado de Clara Luz; ou o corpo histórico de Buda, com o Logos, o Verbo, dizendo que Jesus é Deus e que o Buda não passa de um homem. Nesse caso, estamos comparando níveis de realidade que não são comparáveis.

É interessante vermos qual era a vida de Jesus de Nazaré, e a vida de Sidharta Gautama da tribo de Sakyamuni. Veremos que são duas vidas bastante diferentes, seja num contexto geográfico, seja num contexto religioso – o mundo judeu para Jesus e o mundo hindu para Sidharta, e vermos como cada um interiorizou essas duas tradições, e por vezes entrando em conflito com representantes de ambas as tradições. Então, comparamos dois seres históricos. Um que terá uma vida curta e cujo final será dramático, e outra que é uma vida longa, cujos ensinamentos poderão ser transmitidos a muitas e muitas pessoas. Do ponto de vista histórico, Jesus e Sidharta não se assemelham muito.

Mas, ao nível do seu corpo de ensino, do seu corpo de doutrina, isto é, quando Cristo fala através de Jesus ou quando é o estado desperto que se expressa através de Sidharta, veremos que tanto um quanto o outro, buscaram o despertar de todos os seres vivos, a salvação e a libertação de todos os seres vivos, e aí poderemos ver que seus ensinamentos como complementares, como havia dito, nós precisamos de todas as luzes.

Quando S.S. Dalai Lama, fala sobre os ensinamentos do Buda – Purifique seu coração – nós poderemos encontrar muita ressonância com a tradição do evangelho.

Quando nos situamos no nível último, quando falamos de Jesus enquanto o Logos, o Verbo, como a natureza que dá existência a todas as coisas, esta Clara Luz original, e quando falamos do Buda enquanto Budeidade, neste momento estamos além de todas as comparações.

A Fonte da realidade é a Fonte da realidade. Não existem duas realidades, mas existem infinitas maneiras de expressá-la. A Fonte é Uma.

Quando falamos de Jesus e de Sidharta, estamos comparando dois seres históricos; quando falamos de Cristo e de Buda, estamos falando de dois seres históricos habitados um pela Budeidade e outro pelo Logos, pelo Verbo; e quando falamos da Realidade Última tanto do Cristo, quanto de Buda, então entramos no silêncio, esta Luz Original que está na Fonte dessas duas aparências, dessas duas grandes janelas, através das quais, a Luz do Despertar, a Luz do Vivente nos é transmitida.

 

* Trecho da Palestra “Buda e Cristo”, proferida por Jean-Yves Leloup (e Lama Padma Santem) na Academia Brasileira de Letras – Rio de Janeiro Jan/2013.

Fonte: Ventos de Paz

“Vai para ti mesmo” – Jean-Yves Leloup

Longo e profundo trecho do livro O Absurdo e a Graça, que reflete sobre os desertos e travessias na relação com o outro e sobre como amar este outro…

Por que os mortos são tão pesados para carregar?…
Porque eles têm o peso de todas as palavras que não puderam dizer.
Há silêncios pesados, silêncios que não têm fim: o deserto está entre nós… A distância que nos separa parece intransponível, não adianta gritar, nem explicar; ninguém nos responde. Estamos, no entanto, sentados à mesma mesa. Todavia, não existe mais comunhão. Dormimos na mesma cama, mas não dormimos mais nos mesmos sonhos; e cada manhã, colados um ao outro, nos encontramos cada vez mais afastados…

Entre nós há o deserto, e não é mais o belo silêncio de nossas noites estreladas, mas o frio, a ausência à flor da pele. As palavras que nos saem da boca são escorpiões mortais, e cada um envenena o outro com o veneno das suas acusações ou das suas justificações.

O que o deserto nos pode ensinar?
Que o outro é um outro e que, numa verdadeira relação, não se pode prescindir da diferenciação, quer essa diferenciação assuma as formas agressivas do conflito ou as formas mais capciosas do tédio – “o outro é um peso para mim”, resiste às nossas vontades de apropriação, não se deixa reduzir ao mesmo.

Ele não é eu. Ele pensa, vive e ama “de outro jeito”, e talvez seja esta revelação que o deserto nos traz, a revelação da alteridade – o outro irredutível às minhas vontades de prazer, de posses, carnais, afetivas , intelectuais.

O deserto é um lugar de diferenciação. Não posso decepcionar-me, a não ser à medida das minhas expectativas. Eu esperava que o outro correspondesse a uma certa imagem de homem, de mulher, de casal etc, imagem herdada de nossos pais e da sociedade. Eu amava “uma outra metade”, a metade que me faltava, sem dúvida.. Na verdade eu só me amava a mim mesmo, e agora descubro um outro que, na sua alteridade, não está mais aí para preencher as minhas carências, “tapar meu buraco”.

Ele é bastante ele mesmo ou talvez me ame bastante para me decepcionar, para não me responder como um espelho ou como um conjunto de complacências capaz de me encerrar em minhas reivindicações e frustrações infantis.
Eu me encontro, então, com “um outro inteiro”, que me força ou me convoca para a minha própria inteireza, essa inteireza que jamais se pavoneará como algo totalmente “acabado”, que sempre guardará uma sede para acolher o outro, mas não irá mais impor suas carências nem culpabilizará o outro por não preenchê-las tampouco.

A prova do deserto entre dois seres humanos conduz ao oásis de um verdadeiro encontro, encontro de duas liberdades que, além das regressões fusionais e dos impasses da separação, descobrem que são capazes de Aliança.

Mas nem todos tem a coragem de atravessar o deserto. Aos primeiros sinais do esfriamento da pulsão, às primeiras afirmações das suas diferenças, irredutíveis, ou quando começa a fase da monotonia, o tédio do dia-a-dia, os dois reclamam: ”Não te amo mais”, e vão procurar, alhures, recomeçar a mesma história, beber na mesma miragem, justamente no instante em que a verdadeira fonte não estava longe, quando chega ao fim esse silêncio, essa incompreensão, quando se perdoa o outro por ser um outro e onde enfim se vai talvez poder amá-lo e cantá-lo na sua diferença.

Existem os desertos de areia e há também os desertos da ampulheta, o tempo da paciência, instante após instante, descobrir o milagre que fundamenta a nossa aliança.

E esse deserto, o que é que nos ensina? Ensina o não apego, a des-apropriação do outro. Amar uma pessoa é renunciar a possuí-la, a fazer dela uma propriedade. Nessa renúncia nos é dada a alegria de ser, de ser-com, sem expectativas, sem cobranças, não, porém, sem lucidez, rigor e ternura.

“Vai para ti mesmo”, dizia a bem-amada ao bem-amado, no Cântico dos cânticos. Vai para o teu deserto, como vou também eu para o meu, lá, dando a volta às dunas, iremos encontrar o oásis, onde, libertados das nossas sedes, seremos o poço que aflora um para o outro.
Há também, no coração da relação, o deserto do luto, luto físico ou afetivo – “falte-vos um só ser, e tudo estará despovoado”; falte-vos um só ser, e o mundo é um deserto.

Quando se volta para a casa vazia os corredores parecem não ter fim, e o quarto que ressoava com nossas risadas ou nossas discussões, tem silêncios hostis – “e aquele dos dois que resta, se encontra no inferno…. Aí também precisamos aprender que o outro não nos pertence, mas antes de poder dizer-lhe ainda “vai para ti mesmo”, “vai para a tua luz”, novamente há um longo deserto a atravessar.

O que nos ensinará a morte, senão aquilo que já aprendemos com a solidão? Saber que não existe para ninguém, não ser mais nada, ser apenas um grão de poeira no areal do tempo.

E aí posso ser também tentado por miragens, tentar comunicar-me com os mortos, “trans-comunicação”, mesas que giram, escritas automáticas, tudo isso, poderia, talvez, proporcionar-me algum consolo. Consolo menor, porém, que o da minha solidão aceita, assumida, pois nessa solidão se descobre talvez o maior milagre de uma aliança.
Assim não é necessárias que eu lamente a bondade mas preciso vivê-las ainda mais. Não me deixo mais levar pelas asas da sua presença que se desvaneceu, mas estou cada vez mais presente à terra e à vida que guarda as marcas de seu percurso, da nossa passagem comum.

Amar o outro é renunciar a possuí-lo, mesmo morto. É renunciar a que volte, descobrir que ele está sempre aí, em seu silêncio que não nos mete mais medo, em um deserto que se faz hospitaleiro para acolher tudo aquilo que temos de mais precioso, o essencial que nos resta quando nada mais nos resta.

Fonte: Ventos de Paz

“Amar… apesar de tudo.”

Amar é o que há… O que é, o que somos… Amor para se amar… 

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“Amar… apesar de tudo!

Amar… apesar do medo, da ansiedade, da angústia, da incerteza.

Amar… apesar do passado, do futuro… apesar do presente.

Amar… apesar dos impasses, das dificuldades, dos problemas.

Amar… apesar das impossibilidades.

Amar… apesar do mal, da destruição, da ameaça, do coração de pedra.

Amar… apesar da separação, da indefinição.

Amar… apesar da sombra.

Amar… apesar do outro.

Amar… apesar de mim.

Amar… apesar de Deus.

Amar…

Hoje, mais que nunca, amar.

Amar… a porta que dá acesso ao jardim.”

 

Jean-Yves Leloup

“O ser o que somos, um passo a mais.”

 

“Ele só se tornará Jonas se for na direção de si mesmo, ousando dirigir-se para Nínive, ou seja, em direção ao outro. Porque é na relação com o outro que nós nos tornamos quem somos.

É o fato de ter uma tarefa a cumprir que torna cada um de nós insubstituível, dando um sentido a nossa existência. Essa não é uma tarefa reservada apenas os grandes sábios e profetas, mas é o que cada ser humano pode realizar em sua existência. Só nos tornamos realmente quem somos se formos na direção do outro.

Não fugir do próprio desenvolvimento e não cair no conformismo patológico – o que chamamos de normose – é o resultado de um processo, de uma escolha cotidiana. O fato de ir além de si mesmo, ir além das próprias possibilidades, não é para se perder, mas para se encontrar.

Abraham Maslow fala do complexo de Jonas como sendo o medo que temos da nossa própria grandeza – o medo do Self. Se conseguirmos atravessar esse medo, se confiarmos nessa energia que revela em nós o desejo de realização e de plenitude, então nossa missão se cumprirá.

Resta ainda, uma pequena dificuldade a ser vencida: Qual é a imagem que postulamos do Self? Que imagem temos do Absoluto que nos habita?

Normose significa estar estagnado, retido, seja numa imagem, seja num sintoma. A tarefa, então consiste em dar um passo a mais. Recordo a minha definição de espiritualidade, que é a mesma do peregrino de Compostela: dar um passo a mais.

A vida espiritual nem sempre consiste em ter grandes idéias e maravilhosos projetos, e sim, em dar um passo a mais a partir do ponto que nos encontramos. Não temos que nos comparar com ninguém. Para atingir o alvo, cada um precisa percorrer um caminho longo e único. O importante é dar um passo a mais. O ponto em que paramos é o começo do caminho que segue. É esse passo a mais que resgata a vontade da vida, que vem vindo ao nosso encontro.

Temos que escolher entre uma vida perdida e uma vida escolhida e doada. Através do dom de nós mesmos, descobrimos aquilo que nunca vai morrer em nós. Pois a única coisa que nada nem ninguém pode nos tirar é aquilo que já doamos.” Jean-Yves Leloup

“A normose pode ser definida como o conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir que são aprovados por consenso ou pela maioria em uma determinada sociedade, e que provocam sofrimento, doença e morte. Em outras palavras, é algo patogênico e letal, executado sem que os seus autores e atores tenham consciência de sua natureza patológica. Toda normose é uma forma de alienação.” Pierre Weil

 

Do livro: Normose, a patologia da normalidade.

* Fonte: Blissnow.com.br

Tudo passa. Passa a limpo.

“A cada dia, nas situações que se apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo ou promover a graça.”

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Absurdo e Graça.

Sombra e Luz.

Estar e Ser.

Viver e Despertar pra vida.

 

“Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que “tudo é absurdo” ou dizer que “tudo é graça” é igualmente mentir ou trapacear… Como morrer e ressuscitar, o absurdo e a graça são só dois lados da mesma moeda.”

“Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos.”

* Citações de Jean-Yves Leloup

 

O Poder da Unidade

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Se duas pessoas fazem a paz na mesma casa, dirão a uma montanha: “afasta-te” e ela afastar-se-á, disse Jesus.

Eis o poder da paz, da unidade!

Que se pode fazer contra um homem tranquilo, unificado?

Que se pode fazer contra duas ou três pessoas bem harmonizadas?

As montanhas, as dificuldades, afastam-se. É como se tivessem o apoio de toda Natureza, do Uno que se manifesta em sua harmonia.

Antes de desejar levar a paz para a casa dos outros, é necessário começar em sua “casa”, fazer a paz com as partes “inimigas” de si mesmo, seja o instinto, a emoção ou o intelecto. Enquanto houver divisão em nós mesmos, não será que os obstáculos que encontramos são a expressão de nosso próprio caos?

Encontra a paz interior, dizia São Serafim de Sarov, e uma multidão será salva ao teu lado. Um homem tranquilo, um homem feliz é fonte de paz e de felicidade para toda a humanidade. O que não fariam dois ou três?

Para Clemente de Alexandria, “transportar” montanhas significa nivelar as desigualdades entre os homens, tornar possível o encontro. A Paz permite que a Unidade de todos os seres se manifeste no momento em que o temor ou a cobiça erguem montanhas entre eles.

A “fé que transporta montanhas”. Ora o que é a fé senão a Unidade da inteligência com o coração? A paz realizada entre esses “dois” que, muitas vezes, se opõem na mesma casa: o discernimento e a afetividade?

A fé é indissociavelmente, um movimento da inteligência para a Verdade e um ato de confiança. A fé é aderir com todo o seu ser ao que é reconhecido como verdadeiro e justo. Essa adesão íntima e total implica uma grande potência assim como uma grande lucidez: vai além da razão, mas não contra a razão. E o que tinha a aparência de montanha revela-se à luz dessa força clarividente e viva como um simples ninho de toupeira.

Jean-Yves Leloup

“Eternidade Reencontrada” – Jean-Yves Leloup

Entrevista com Jean-Yves Leloup ao jornal Diário do Nordeste, em 09/09/2002.

Para você, o que significa a fé?

Jean Yves Leloup – A fé é o que os antigos chamam uma virtude teologal, ou seja, um poder de ordem divina, uma inteligência maior do que minha inteligência. Em certos momentos, sou mais inteligente do que a inteligência que tenho…! E nesses momentos eu sei o que é a fé. Os latinos insistem, sobretudo, na noção de ‘confiança, de nos confiarmos a …’, enquanto que os gregos chamam a atenção para ‘a abertura de nossa inteligência para uma maior’. A proclamação eu creio em Deus significa literalmente ‘conheço a Deus como Deus se conhece; deixo Deus conhecer-se em mim’.

Você pensa que, na educação cristã, a noção de perdão é bem explicada?

Jean Yves Leloup – É verdade que não se pode dizer a alguém que ‘é necessário perdoar’, assim como não é possível dizer que ‘é necessário amar’; a fórmula é necessário é algo supérfluo. No entanto, podemos aceitar o que é, procurar compreender, até mesmo exigir compreender o que se passa. Com efeito, exigir é também uma forma de respeitar o outro, é exigir dele que se dê conta do que fez. Em seguida, no âmago do enfrentamento que reclama justiça, há um momento em que somos como que lavados de nossas memórias. Neste instante, intervém alguma coisa que está para além do eu, para além do dom: é isso o que se pode chamar perdão.

Você diz que o orgulho é pura estupidez. Não poderíamos dizer o mesmo do medo: o medo do julgamento dos outros, o medo de nossos próprios limites, de nossas fraquezas?

Jean-Yves Leloup – É verdade que o orgulho é, muitas vezes, alguém fraco, frágil; ele tenta preencher sua carência com vaidade. É por isso que devemos ter compaixão pelos orgulhosos: na maior parte das vezes , eles são miseráveis. Com alguém que reconhece sua fraqueza, sua carência, é possível crescer. Trata-se de devolver-lhe seu amor próprio, sua dignidade. Pelo contrário, não é possível devolver ao orgulhoso seu amor próprio, sua dignidade, porque ele julga que já é detentor de tudo isso!

Será possível que alguém que tenha vivenciado experiências afetivas decepcionantes, traumatizantes, conserve a confiança no ser humano?

Jean-Yves Leloup – Não. Estou pensando no versículo que diz: ‘Infeliz do homem que confia no homem’. A confiança deve ser depositada não no homem, mas na vida que está nele: depositar confiança no que há de melhor nele; caso contrário, depositar confiança em uma pessoa é dedicar-se a uma grande decepção.

Será que podemos reencontrar o sentido profundo da palavra felicidade?

Jean-Yves Leloup – A etimologia da palavra felicidade é muito significativa. É a ‘boa hora’, de estarmos presente onde estamos! Seria necessário devolver à palavra felicidade sua dimensão feminina (a boa hora) que é uma forma de esposar o instante. A felicidade é reencontrarmos em nós a capacidade para amar, porque tudo o que fazemos sem amor é tempo perdido, é feito em má hora, é uma infelicidade… Enquanto tudo o que fazemos com amor é a eternidade reencontrada. Desse modo, a felicidade nos é dada por acréscimo.

Oração, meditação, simples de Coração.

Deserto… O espaço-templo silencioso de ti… Em mim…

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“Ainda seguindo essa reflexão sobre a Presença silenciosa ou o silêncio habitado podemos novamente mencionar Panikkar, que escreve: quando estamos verdadeiramente sós, encontramos a Deus, (interior intimo meu, como ensina Santo Agostinho), como o mais íntimo de mim, o que me é mais interior, o que mais realmente sou que é então, precisamente, o que me abre aos demais.

Bem sabemos que a oração não requer grandes reflexões nem profundos pensamentos, mas apenas a simplicidade do coração.

Assim também a meditação não discorre com a mente, não é pensar ou considerar com Deus a respeito dos mistérios, mas é antes de tudo olhar o Outro, sair de si e imergir no Outro. É perceber-se diante do Cristo e conversar, face a face, desnudado de qualquer atitude que possa afastar-nos de Seu rosto.

Devemos, assim, procurar escutar quem está no início e no fim de nossa expiração e inspiração. Conseguiremos compreender, nesses segundos, que podemos vivenciar, na fugacidade de um instante, algo muito profundo no início e fim desse fluxo e refluxo, que é um oceano habitado e silencioso.

Meditar assim é, pois, conhecer o Eterno na fugacidade do instante, ou, como disse o autor, meditar é saber orar com o coração, ou também, no dizer do monge Serafim não a fastar-se do silêncio que aproxima a pessoa da fonte.”

Em silêncio, em sintonia, em síntese… Simplesmente em si…

 

Fonte: A meditação hesicasta a partir do relato de Jean-Yves Leolup – Pag. 17.

As impurezas do espírito/consciência.

“Estamos bem no coração do Evangelho, isto é, da “metanoia”,- em grego significa ir além do nous, mudar de nous, de consciência, o que se traduz por “convertei-vos” ou dito de outra maneira: mudai de mentalidade, mudai vossa interpretação do mundo, mudai vossa maneira de ver. Mudar o olhar é mudar o mundo!”

“Nós somos o que pensamos, e o que nós somos depende do estado de nosso espírito, do estado de nossa consciência.

Nossos pensamentos fazem o mundo no qual vivemos, aquele que fala e age com um espírito doentio, o sofrimento o segue como a roda segue o casco do boi que puxa a carroça”

“Estes momentos de meditação, de observação de si mesmo não são simplesmente para si, mas para o bem estar de todos: um espírito doente só pode aumentar a miséria do mundo.

Antes de amar, é necessário procurar não prejudicar, por nosso pensamento, por nosso estado de espírito. Respeitar os outros com esta vontade de não prejuízo é, sem dúvida, primeiro ato de amor que a gente pode oferecer a alguém – ahimsa, a não violência, que bem poderia se traduzir por “não-prejuízo”.

 

* Trecho do livro: A Montanha no Oceano, por Jean-Yves Leloup

Fonte: Blissnow.com.br