Um Sol Coração

Onde a vida está? Onde tu és?

Tag: o silêncio

“Vai para ti mesmo” – Jean-Yves Leloup

Longo e profundo trecho do livro O Absurdo e a Graça, que reflete sobre os desertos e travessias na relação com o outro e sobre como amar este outro…

Por que os mortos são tão pesados para carregar?…
Porque eles têm o peso de todas as palavras que não puderam dizer.
Há silêncios pesados, silêncios que não têm fim: o deserto está entre nós… A distância que nos separa parece intransponível, não adianta gritar, nem explicar; ninguém nos responde. Estamos, no entanto, sentados à mesma mesa. Todavia, não existe mais comunhão. Dormimos na mesma cama, mas não dormimos mais nos mesmos sonhos; e cada manhã, colados um ao outro, nos encontramos cada vez mais afastados…

Entre nós há o deserto, e não é mais o belo silêncio de nossas noites estreladas, mas o frio, a ausência à flor da pele. As palavras que nos saem da boca são escorpiões mortais, e cada um envenena o outro com o veneno das suas acusações ou das suas justificações.

O que o deserto nos pode ensinar?
Que o outro é um outro e que, numa verdadeira relação, não se pode prescindir da diferenciação, quer essa diferenciação assuma as formas agressivas do conflito ou as formas mais capciosas do tédio – “o outro é um peso para mim”, resiste às nossas vontades de apropriação, não se deixa reduzir ao mesmo.

Ele não é eu. Ele pensa, vive e ama “de outro jeito”, e talvez seja esta revelação que o deserto nos traz, a revelação da alteridade – o outro irredutível às minhas vontades de prazer, de posses, carnais, afetivas , intelectuais.

O deserto é um lugar de diferenciação. Não posso decepcionar-me, a não ser à medida das minhas expectativas. Eu esperava que o outro correspondesse a uma certa imagem de homem, de mulher, de casal etc, imagem herdada de nossos pais e da sociedade. Eu amava “uma outra metade”, a metade que me faltava, sem dúvida.. Na verdade eu só me amava a mim mesmo, e agora descubro um outro que, na sua alteridade, não está mais aí para preencher as minhas carências, “tapar meu buraco”.

Ele é bastante ele mesmo ou talvez me ame bastante para me decepcionar, para não me responder como um espelho ou como um conjunto de complacências capaz de me encerrar em minhas reivindicações e frustrações infantis.
Eu me encontro, então, com “um outro inteiro”, que me força ou me convoca para a minha própria inteireza, essa inteireza que jamais se pavoneará como algo totalmente “acabado”, que sempre guardará uma sede para acolher o outro, mas não irá mais impor suas carências nem culpabilizará o outro por não preenchê-las tampouco.

A prova do deserto entre dois seres humanos conduz ao oásis de um verdadeiro encontro, encontro de duas liberdades que, além das regressões fusionais e dos impasses da separação, descobrem que são capazes de Aliança.

Mas nem todos tem a coragem de atravessar o deserto. Aos primeiros sinais do esfriamento da pulsão, às primeiras afirmações das suas diferenças, irredutíveis, ou quando começa a fase da monotonia, o tédio do dia-a-dia, os dois reclamam: ”Não te amo mais”, e vão procurar, alhures, recomeçar a mesma história, beber na mesma miragem, justamente no instante em que a verdadeira fonte não estava longe, quando chega ao fim esse silêncio, essa incompreensão, quando se perdoa o outro por ser um outro e onde enfim se vai talvez poder amá-lo e cantá-lo na sua diferença.

Existem os desertos de areia e há também os desertos da ampulheta, o tempo da paciência, instante após instante, descobrir o milagre que fundamenta a nossa aliança.

E esse deserto, o que é que nos ensina? Ensina o não apego, a des-apropriação do outro. Amar uma pessoa é renunciar a possuí-la, a fazer dela uma propriedade. Nessa renúncia nos é dada a alegria de ser, de ser-com, sem expectativas, sem cobranças, não, porém, sem lucidez, rigor e ternura.

“Vai para ti mesmo”, dizia a bem-amada ao bem-amado, no Cântico dos cânticos. Vai para o teu deserto, como vou também eu para o meu, lá, dando a volta às dunas, iremos encontrar o oásis, onde, libertados das nossas sedes, seremos o poço que aflora um para o outro.
Há também, no coração da relação, o deserto do luto, luto físico ou afetivo – “falte-vos um só ser, e tudo estará despovoado”; falte-vos um só ser, e o mundo é um deserto.

Quando se volta para a casa vazia os corredores parecem não ter fim, e o quarto que ressoava com nossas risadas ou nossas discussões, tem silêncios hostis – “e aquele dos dois que resta, se encontra no inferno…. Aí também precisamos aprender que o outro não nos pertence, mas antes de poder dizer-lhe ainda “vai para ti mesmo”, “vai para a tua luz”, novamente há um longo deserto a atravessar.

O que nos ensinará a morte, senão aquilo que já aprendemos com a solidão? Saber que não existe para ninguém, não ser mais nada, ser apenas um grão de poeira no areal do tempo.

E aí posso ser também tentado por miragens, tentar comunicar-me com os mortos, “trans-comunicação”, mesas que giram, escritas automáticas, tudo isso, poderia, talvez, proporcionar-me algum consolo. Consolo menor, porém, que o da minha solidão aceita, assumida, pois nessa solidão se descobre talvez o maior milagre de uma aliança.
Assim não é necessárias que eu lamente a bondade mas preciso vivê-las ainda mais. Não me deixo mais levar pelas asas da sua presença que se desvaneceu, mas estou cada vez mais presente à terra e à vida que guarda as marcas de seu percurso, da nossa passagem comum.

Amar o outro é renunciar a possuí-lo, mesmo morto. É renunciar a que volte, descobrir que ele está sempre aí, em seu silêncio que não nos mete mais medo, em um deserto que se faz hospitaleiro para acolher tudo aquilo que temos de mais precioso, o essencial que nos resta quando nada mais nos resta.

Fonte: Ventos de Paz

Sim em Si

Afirmo, Confirmo, Firmo equilibradamente…

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discernindo

o equilíbrio

do desequilíbrio

eis o caminho.

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Luz acesa, escuridão esclarecedora…

Vida: Lugar de Passagem

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entrego-me a luz

recebo luz

transparecendo a luz

Em silêncio interior, volto-me ao centro… Ao aberto ponto central, ao íntimo ser primordial… Afinando-me ao coração, tocando a serena canção… Ouço a voz do silêncio… Soprando palavras deste hino da comunhão…

Aprofunda Paz

Não é um mar de rosas, mas de roseiras…

original

Paz profunda… Sob as flores do caminho…

Paz profunda… Sob os espinhos do caminho…

Paz profunda… Sob o silêncio do caminho…

 

O perfume da rosa é de roseira…

Caminho é. Caminho sou.

Fonte perene… Ponte renascente… Serena-mente…

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Buscar o Caminho… Trata-se de buscar saber “Por quê é assim”…

Mas ao Encontrar o Caminho… Trata-se de “Aceitar que assim é”…

E ao Estar no Caminho… “Aceitando que é assim”… pode-se vir a “Compreender Como é”… “Como sou”…

 

Buscamos O que é… Encontramos Como é… Seguimos Como somos…

“Esse caminho tem coração?”

Fazer simplesmente a nossa parte… inteira. Cuidando de onde estivermos, pois aqui estamos.

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Caminho no silêncio.

Caminho em oração.

Caminho do coração.

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Esse caminho tem coração? Todos os caminhos são os mesmos: não conduzem a lugar algum. São caminhos que atravessam o mato, ou que entram no mato. Em minha vida posso dizer que já passei por caminhos compridos, mas não estou em lugar algum. A pergunta de meu benfeitor agora tem um significado. Esse caminho tem um coração? Se tiver, o caminho é bom; se não tiver, não presta. Ambos os caminhos não conduzem a parte alguma; mas um tem coração e o outro não. Um torna a viagem alegre; enquanto você o seguir, será um com ele. O outro o fará maldizer sua vida. Um o torna forte; o outro o enfraquece.” Don Juan Matus, mestre de Carlos Castaneda.

 

* Fonte: TomSimões.com

“O silêncio também faz parte da música.”

Trecho da entrevista de Jean-Yves Leloup ao Comunidade VIP, em dezembro 2016.

“Amar o outro é renunciar a possuí-lo.”

 

Como descobriu a espiritualidade?

Nasci numa família de ateus. Tive formação muito racionalista. Saí da casa de meus pais para conhecer o mundo. Com apenas 19 anos, fiquei muito doente em Istambul (Turquia), em decorrência de uma comida estragada. E ali, naquela cidade, vivi uma experiência impressionante. Fui declarado clinicamente morto e até quiseram me enterrar. Quando voltei ao meu corpo, comecei a me interrogar: “O que não morre, quando todo o resto morre?”. Há o momento em que o pássaro sai da gaiola, e também há o momento em que o voo sai do pássaro. Nesse momento em que o voo sai do pássaro, tem um instante de luz e de presença que permanece. Em Istambul, encontrei o patriarca Atenágoras, da Igreja Ortodoxa, que me levou até um ícone do Cristo. Ao lado desse ícone estava uma inscrição em grego, que dizia “Eu Sou”. Naquele momento, o “Eu Sou” não eram meras palavras, mas o que eu tinha acabado de viver, durante a morte clínica. E foi a partir desse momento que me interessei pelo Cristianismo.

Nas chamadas “experiências de quase morte”, há relatos de pessoas que vêem um túnel de luz ou imagens referentes a sua crença. O que o senhor viu, naquela hora?

Vi apenas a vastidão, pois meu inconsciente não guardava nenhuma imagem religiosa. Foi até normal não ter visto nada. Senti apenas o espaço que contém todas as coisas. É como se estivesse vendo o dia, ao invés das coisas que aparecem no dia. E o dia permanece. Em latim, a palavra “dia” quer dizer dies, que, por sua vez, significa Deus. Essas palavras têm a mesma raiz, no latim. Então, ver o dia é ver Deus.

Ultimamente, surgiu uma onda de livros em defesa do ateísmo, vindos de autores como o biólogo inglês Richard Dawkins e o jornalista inglês Christopher Hitchens. O que acha desse movimento?

Depende de qual imagem de Deus estamos rejeitando. Em nível psicológico, muitos ateus estão rejeitando aquilo que eles viveram no passado. Mas o Deus que eles estão rejeitando muitas vezes não tem nada a ver com o Deus verdadeiro. É, simplesmente, uma certa imagem ou representação divina que eles estão rejeitando. A questão é o que fazer com a religião, Deus e a razão. Com a mesma flor a abelha pode fazer o seu mel e a vespa pode fazer o seu veneno. E a culpa não é da flor.

As religiões cristãs em geral são caracterizadas como dogmáticas. Como funciona essa questão para você?

Na origem, o dogma era um paradoxo. Era algo feito para despertar a consciência para além do funcionamento binário do cérebro. Por exemplo, o dogma que diz que Cristo é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus tem o sentido de ultrapassar, ir além da consciência ordinária. O dogma então é um pouco como o Koan, do japonês. Ou seja, um paradoxo que nos ajuda a ir além da razão, mas sem perder a razão. Mas hoje em dia o dogma é confundido com dogmatismo, que significa obrigar alguém a acreditar em algo. Isso é destrutivo. O dogma, na realidade, foi criado para que saíssemos do dogmatismo. É um convite para que verifiquemos se isto é verdade.

“Tudo o que fazemos sem amor é tempo perdido; tudo o que fazemos com amor é a eternidade reencontrada.”

“É um longo caminho aprender a doçura.”

Trecho da entrevista de Jean-Yves Leloup ao Jornal A Tarde. Em 25/09/2018.

Antes Deus era uma ideia, depois passou a ser uma imagem, agora é um silêncio.

Presidente da universidade Holística Internacional de Paris, Leloup é autor de mais de 50 livros - Foto: Adilton Venegeroles / Ag. A TARDE

O senhor é vinculado à Igreja Ortodoxa. Acredita que para desenvolver a espiritualidade é preciso estar conectado a uma religião, qualquer que seja ela, ou pelo menos à ideia de Deus, de uma força maior na qual se possa confiar?

Cada religião é como um poço. Podemos ficar na superfície e fazer uma publicidade para dizer que a nossa água é a melhor, mas o importante é ter sede. E beber na fonte. Não importa qual seja o poço que você vá beber. Existe um momento onde a forma é importante, mas são formas exteriores. Mas no fundo do fundo tem a fonte. E nesse caso, quando nós estamos no fundo, nós estamos além da forma, e fora inclusive do próprio poço, para além da religião. Mas cada um deve procurar o seu poço para ir na direção da fonte.

Mas o senhor acredita que esse poço precise ser religioso, necessariamente? Um ateu pode desenvolver sua espiritualidade? De que modo?

Sim, o importante é cavar (risos). No Evangelho de João, ele diz que a luz habita todos os homens vindos ao mundo. E todos os homens que procuram a luz, que procuram a fonte da vida, podem encontrá-la. O importante não é a forma do poço, mas a sede daquele que cava, que se aproxima da fonte.

Para o senhor, a meditação é uma forma de reconectar-se com o divino. E muitas pessoas reclamam que é difícil meditar, apesar da popularização desta prática nos últimos anos. Estão lá sentadas brigando com seus pensamentos… Entre tantas técnicas, qual é a que o senhor prefere?

Meditar é estar consciente, estar atento, estar presente, quer estejamos em pé, sentados ou deitados. O que pode nos colocar na direção do interior é a atenção à respiração. Com a respiração, nós podemos nos aproximar do mistério da vida. Nossa vida se mantém através deste sopro. Este sopro é o fio que nos interliga à fonte. O sopro é uma maneira muito simples de estar atento, de estar presente. Eu gosto também muito de meditar estando na natureza, meditar como uma montanha, com todo meu peso, meditar como uma árvore, interligada ao céu e à terra. Meditar como um oceano… A meditação não é nem laica nem religiosa. Ela é natural. E é necessário reencontrar a oração primeira, a meditação original, a meditação de todos os elementos. É necessário aprender a orar como o pássaro que canta. Respirar com consciência. É importante não tentar controlar os pensamentos, mas abandonar-se.

“É um longo caminho aprender a doçura. É necessário ser muito forte para ser doce. É necessário muita energia e muito autocontrole. (…) É um longo caminho tornar-se livre.”

“Todos os caminhos são bons. A condição é que a gente não pare no meio do caminho.”

Diante. Adiante. Caminhante.

Ser… AutoconheSer… Aquela paz… A paisagem interior…

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caminho da sabedoria:

o caminho dá sabedoria.

sabedoria dá o caminho.

 

Conhecimento é o caminho… Caminhar é autoconhecimento…

 

* Ilustração: Tomasz Alen Kopera

Ando centrAndo

Centra… Entra no eixo central… Radial… Um todo aberto… Afinando, refinando, sintonizando… O ser consciencial… Que encontra-se no labirinto existencial…

No meio das simultâneas e efêmeras realidades… O aqui-agora…

No meio dos excessos e viciantes facilidades… Um todo…

No meio da decadente e barulhenta babilônia… O silêncio atemporal…

No meio das tempestades e inundações de inutilidades… A sabedoria interior…

No meio do desespero coletivo e da “violência travestida”… A nudez da consciência…

 

Tu és simplesmente sagrado… Comumente extraordinário… “A totalidade não é a perfeição, mas sim o ser completo”… Entregue-se e integre-se a fonte e seja aquele que és renascente… Esvazie-se do peso passado e automaticamente repassado… Caia em si, beba da fonte, tome consciência e torne-se um repleto vazio… Naquela receptiva abertura primordial… A renovável manancial da vida… que dá a luz a vida… Desdobre-se, desfrute de seu renovável potencial criativo… que é a instintiva natureza divina…

Desde os primórdios… Sábios e sábias revelam o primordial… “Sabedoria é prioridade”… Sabedoria é em si perene…